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Foi com muito suor e prazer que a Sobreurbana realizou entre 24 e 30 de novembro/14 a 1ª Semana da ecologia Urbana de Goiânia. E esperamos que tenha sido a primeira de muitas oportunidades para aprendermos a construir uma cidade onde todos nós caibamos nela, junto com os prédios, as ruas, as árvores, os rios, o sol, o céu, os bichos, em harmonia.

Nossa programação buscou sensibilizar e preparar tecnicamente para a construção da resiliência da nossa cidade, tratando de temas como: infraestruturas urbanas verdes, serviços ecossistêmicos, desenho sensível à água e a permacultura, com destaque para alguns de seus artifícios como os telhados vivos, os jardins de chuva e os jardins verticais; o movimento de transição e a metodologia cradle to cradle; o cicloativismo, a agricultura urbana e a sustentabilidade do mercado frente aos desafios da escassez de recursos e as mudanças climáticas. Iniciamos a discussão com a exibição do filme “Home – Nosso Planeta, Nossa Casa” e encerramos com um passeio para observar e conhecer as árvores da cidade. E ainda iniciamos juntos, e a partir do absorvido ao longo da semana, uma “Carta para Goiânia”, onde vamos pontuar as questões que entendermos necessárias para a nossa cidade, resultando em um documento que oriente nossas ações futuras e reivindicações ao governo, além de formar a pauta para a próxima Semana da Ecologia, em 2015. Esse processo está sendo conduzido pelo murAU de Ideias.

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Essa intensa e diversificada programação que conseguimos montar, só foi possível devido a parceria que estabelecemos com vários indivíduos, grupos e instituições: o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás – CAU/GO e o Sindicato dos Arquitetos de Goiás, que foram os primeiros a acreditarem e apoiarem o projeto; Mr. Dusty Gedge e Mr. Gary Grant, do Green Infrastructure People, que nos inspiraram a idealizar o evento; a PUC Goiás, especialmente através do Departamento de Artes e Arquitetura e do Centro Acadêmico Livre da Escola de Arquitetura – CALEA; a Prefeitura Municipal de Goiânia, especificamente através do Departamento de Agricultura Familiar da SEMIC; o Programa de Pós-graduação Projeto e Cidade da UFG; Sebrae Goiás; a ANTP – Regional Centro-Oeste; o projeto “O Futuro da Minha Cidade” através do SINDUSCON, ADEMI e SECOVI; Tyba Hostel; Cine Cultura; nossos palestrantes, oficineiros e fornecedores; Elisa França e Maria Ester, fundamentais para os trabalhos de divulgação e produção do evento; aos amigos Áureo Rosa, Carolina Camargo, Diogo Santos e tantos outros que de alguma forma nos apoiaram e acreditaram na importância desse projeto. Muito obrigada!

ECOLOGIA URBANA é uma recente área de estudo que, extrapolando a ideia de natureza virgem trabalhada pela ecologia tradicional, busca compreender o ecossistema da cidade, um amálgama de natureza e artificialidade, a maior invenção humana. Mas, como em todos as nossas criações, às vezes acertamos, às vezes erramos. Em relação às cidades e ao impacto que elas causam ao planeta, não temos mais tempo para tantos erros. E temos muita informação para nos convencermos de que os recursos naturais do planeta não são infinitos e que tudo acontece nele numa relação muita clara de causa e efeito. Se somos todos frutos de um grande Big Bang, somos todos partículas de uma mesma célula chamada universo. É infantil e equivocado olhar para os seres humanos como seres superiores aos outros animais, às pedras, ou às ervas daninhas. Ou aprendemos a coexistir numa relação de equilíbrio com todas as partes do ecossistema, ou seremos em breve eliminados dessa equação.

Por isso as CIDADES são o objeto de estudo da vez. O relatório “Perspectivas Globais de Urbanização”, lançado pela ONU em julho deste ano, aponta que em 2050 seremos 6 bilhões de seres humanos na Terra, dos quais 66% viverão em cidades. Esse processo de urbanização intensa é muito recente na história do planeta, e muito injusto. Estudos apontam que 20% das pessoas no mundo consomem o equivalente a 80% dos recursos disponíveis. Esse desequilíbrio se deve em grande parte aos processos de urbanização que conduzimos, baseados no consumo exacerbado de todas as coisas e no crescimento irracional em todas as direções. Esse modelo não tem sido positivo nem para o planeta e nem para nós. Precisamos fazer diferente.

Como? Utilizando a arborização como forma de garantir a qualidade do ar e de amenizar os efeitos das ilhas de calor; gerindo melhor os fluxos da água, seja no solo, nos mananciais ou no ar; formando corredores verdes com a trama de parques, a fim de manter a biodiversidade da fauna e da flora; reduzindo, reutilizando e reciclando tudo, sempre; utilizando energia limpa; plantando alimentos mais perto de onde estão as pessoas; diminuindo a nossa dependência dos automóveis; aprendendo tolerância e cooperação entre pessoas e comunidades; e tantas outras possibilidades de harmonia entre o ambiente construído e a natureza.

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A SOBREURBANA é um estúdio criado ano passado aqui em Goiânia para o desenvolvimento de intervenções urbanas e gestão cultural. Nosso propósito é contribuir para a transição da cidade que temos hoje para uma cidade mais tolerante, justa, saudável e centrada nas pessoas. Acreditamos em e trabalhamos para o empoderamento das pessoas nas tomadas de decisões e na construção de ambientes mais aprazíveis e dignos. E sabemos que o protagonismo das comunidades depende de uma relação de maior afeto e cuidado entre pessoas e lugares, do entendimento de que nós, pessoas, somos a nossa cidade. Nesse sentido, a 1ª Semana da Ecologia Urbana de Goiânia é para nós, Sobreurbana, um marco que encerra nosso primeiro ano de ações voltadas para a sensibilização das pessoas em torno das questões urbanas, do ambiente que construímos.

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Que venha 2015 e muitas outras Semanas cheias de Ecologia Urbana!

A 1ª Semana da Ecologia Urbana de Goiânia será, queremos que seja, a primeira de muitas semanas dedicadas anualmente ao macro tema da Ecologia Urbana, na região de Goiânia e no mundo.

Globalmente, tem-se experienciado fenômenos extremos como ilhas de calor, enchentes, secas, poluição do ar e da água e perda da biodiversidade. No seu crescimento, as cidades que não conhecem o seu ecossistema, destratam a natureza e provocam danos por vezes irreversíveis. Mas com o conhecimento e ferramentas adequadas, elas podem encontrar soluções que contribuam para uma melhor relação com o planeta, que melhoram a qualidade de vida do cidadão, que tornam a cidade mais limpa, mais bonita e que valorizam a própria região.

O objetivo da Semana da Ecologia Urbana de Goiânia é de contribuir cultural e tecnicamente na melhoria da resiliência urbana e no desempenho das cidades, reunindo profissionais, pesquisadores e apaixonados pela tema para compartilhar seus conhecimentos através de palestras, seminários, oficinas, workshops e outras atividades que estimulem o networking e a troca de conhecimentos.

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A falência de Detroit foi um sinal claro do que pode acontecer a uma cidade que depende unicamente da indústria. O que chegou a ser o maior centro mundial de fabrico de automóveis tornou-se numa cidade fantasma que perdeu metade da sua população nos últimos 50 anos e onde cerca de um terço de todos os seus edifícios estão abandonados.

Mas o que parecia ser o fim pode afinal ser um novo início: a agricultura urbana parece ter começado a ocupar os espaços abandonados pela indústria falida. Um empresário local comprou recentemente 600,000 m2 de terra à cidade de Detroit com opção de compra de mais 700,000 m2, tendo-se comprometido a demolir todos os edifícios abandonados e plantar árvores no seu lugar. O Banco da America anunciou também os seus planos para demolir 100 casas e doar a terra para agricultura urbana, que tem sido prática comum de muitos dos residentes que lá permaneceram

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Muitos não acreditam que estes esforços resultem na recuperação da cidade e certamente não conseguirão resolver todos os seus problemas, mas é um passo importante em direção a uma cidade mais sustentavel e autossuficiente. E um sinal de esperança para o futuro.

No último fim de semana aconteceu em Goiânia o “Congresso Nacional Cidade e Sustentabilidade” que promoveu a discussão “A Goiânia que Queremos”. Realizado no Centro Cultural da Universidade Federal de Goiás, o evento decorreu de uma parceria entre esta instituição e a Secretaria Municipal de Cultura e marcou as comemorações do aniversário do Batismo Cultural da cidade, que completará em outubro 80 anos de existência.

O evento contou com várias interessantes e motivantes palestras, a primeira delas proferida pelo jornalista Gilberto Dimenstein que explorou o tema ‘Diversidade Cultural’. Apresentando uma série de intervenções urbanas realizadas na Vila Madalena, em São Paulo, possibilitadas pelo envolvimento da comunidade local, o jornalista ressaltou a importância da diversidade cultural para o surgimento de ambientes criativos. Sugeriu que Goiânia pensasse em seus ‘desperdícios urbanos’ para então buscar unir os pontos da cidade, atraindo as pessoas a ocuparem esses espaços. “Você mede a cidadania de uma cidade pela largura de suas calçadas”, defendeu. Ao final apresentou seu Blog Catraca Livre que há anos divulga eventos e espaços em São Paulo que podem ser usufruídos de graça, e ofereceu à prefeitura de Goiânia a criação de uma plataforma similar sobre a capital goiana. Na segunda palestra do dia, o arquiteto Roberto Montezuma apresentou um estudo desenvolvido para o planejamento ambiental da cidade de Recife, intitulado Árvore da Água, numa proposta inovadora de integração radical entre projetos.

O dia seguinte começou com a fala do jornalista Washington Novaes com o tema “A Cidade Hoje”, explorando os problemas advindos da expansão indiscriminada da cidade sobre infraestruturas deficientes. No momento do debate a professora Ana Guiomar ressaltou que não são nada exploradas em nossa cidade suas dimensões ética e estética: faltam-nos estratégias que tragam às pessoas o prazer de viver a cidade e a administração municipal não se ocupa em preparar cidadãos. O arquiteto Érico Naves Rosa complementou com a necessidade de pensarmos o local, de promovermos além do macro o micro planejamento urbano. Em seguida a professora e arquiteta Marta Romero fez uma interessante apresentação sobre sustentabilidade no contexto urbano, defendendo que qualquer ideia de sustentabilidade deve provar sua operacionalidade. Apresentou a triste constatação de que a degradação urbana geralmente decorre de lacunas na caracterização da demanda e de imperícias técnicas na solução dos problemas e insistiu que a sociedade já possui o conhecimento técnico para fazermos a diferença, falta-nos agora a vontade política. Sobre mobilidade, dentre outros pontos ela defendeu que “Estacionamento não é um direito adquirido, é um problema privado” e reforçou que o consumo de energia nas cidades está diretamente relacionado com a morfologia urbana.

O evento foi encerrado no terceiro dia com a fala da economista Ana Carla Fonseca sobre “Cidades Criativas” como uma proposta de transformação urbana. Tentando contribuir com o contexto local convidou a plateia a pensar no quê que Goiânia tem de singular que pode fazer com que pessoas de outros lugares venham conhecê-la. Com um discurso muito próximo da primeira fala do evento, a do jornalista Gilberto Dimenstein, e muito aderente aos estudos do professor americano Richard Florida, defendeu como base de uma cidade criativa suas inovações, conexões e diversidade cultural.

Ainda que esta última palestra tenha acontecido com a casa cheia o evento foi criticado pelo público reduzido que recebeu nos outros dias, quando estiveram presentes poucos representantes de movimentos sociais e não se percebeu a presença dos legisladores municipais, atores fundamentais para as transformações urbanas que queremos. Apesar disso, foram registrados dois legítimos protestos no espaço do evento: um promovido pela Associação Verde Vale sobre as recentes alterações no Plano Diretor municipal e outro promovido por estudantes sobre a recente demolição de casas históricas no centro da cidade.

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Protesto contra a demolição da “Casa da Rua 20” marca congresso e exige providências da Prefeitura sobre o patrimônio edificado da cidade.

Como público presente, arquiteta e sobretudo como cidadã comprometida com a cidade em que resido, penso que temos que ocupar esses espaços de discussão sobre a cidade, para nos fazermos ouvidos, para resgatarmos uma cidadania aparentemente perdida por entre as vias públicas cheias de sujeira, pela poluição visual dos letreiros comerciais e pelo patrimônio edificado degradado que formam a paisagem da nossa cidade. A Goiânia que quero é uma cidade criativa e sustentável, que orgulha-se da sua diversidade cultural, da sua juventude, que preza pelo direito de desfrutarmos de todo o território, que fortalece as relações humanas, que respeita o ambiente, que permite que as pessoas interajam propositivamente com a cidade, construindo-a de baixo para cima.

E você, o que espera para Goiânia?

Há umas semanas atrás, em uma de nossas incursões sobre o vasto território da cidade que pouco conhecemos, deparamo-nos com os restos da linha férrea de Goiânia. Um importante eixo para o desenvolvimento inicial da cidade, devido às opções políticas dos governos estadual e federal a linha férrea esteve em operação por um curto período de três décadas. Após o encerramento das atividades da ferrovia no início dos anos 80, seu eixo foi muito pouco explorado, tendo sido relegado à degradação. Desde então, a passos muito lentos a prefeitura local vem transformando trechos da antiga linha férrea em vias para circulação de automóveis – vale dizer que em alguns pontos a circulação se limita mesmo aos automóveis, por sua característica inóspita aos pedestres.

Linha Férrea

Imagem aérea de Goiânia com os eixos do Plano Inicial (azul) e a linha férrea (vermelho)

 

Curioso notar que embora um de nossos monumentos seja o prédio da Estação Ferroviária, construído em estilo Art Deco e contendo dois afrescos do Frei Confaloni, a maioria das pessoas jamais viu os trens em funcionamento e sequer percebe sua cicatriz na malha da cidade. Nós resolvemos superar essa lacuna em nossa memória e resolvemos explorar o trecho compreendido entre a sede da Sociedade Goiana de Agricultura e Pecuária (Setor Leste Vila Nova) e as proximidades da rodovia estadual GO-010 (Jardim Novo Mundo). Uma pequena parte desse trecho ainda contém os antigos trilhos, ladeados por habitação precária de ocupação irregular. Em boa parte da linha os trilhos foram retirados e deram lugar a ruas asfaltadas para a circulação de automóveis, e há lugares onde só se circula a pé, em meio ao mato e depósitos de lixo. Todo o entorno da linha férrea compreendido nesta área apresenta sinais de degradação, mas também oportunidades para reabilitação: são moradias precárias, muitas em situação fundiária irregular, além de remanescentes de atividades industriais decadentes e áreas ambientalmente frágeis, tudo isso entremeado por áreas livres, glebas e terrenos ainda sem uso.

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Estação Ferroviária

 

Trilho

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Trechos dos trilhos urbanos em Goiânia

O interessante é que apesar de todos esses problemas o eixo permanece na malha da cidade como uma oportunidade de reabilitação ambiental, social e econômica. Há a necessidade de recuperar a memória sobre a ferrovia, e também há a necessidade de promover regularização fundiária e melhorias habitacionais no local, de recuperação ambiental de fundos de vale por onde os trilhos se elevam, de melhorar a mobilidade local e regional com o eixo que permanece ‘aberto’ na malha viária, de criar e manter um corredor verde, com áreas permeáveis, melhor umidade, atrativo à fauna e corredores para ventos; dentre outras possibilidades.

O High Line em New York e a Promenade Plantée em Paris são exitosos exemplos de reabilitação de estruturas urbanas – trilhos elevados – através da revegetação. Em Goiânia, a antiga Estrada de Ferro Goyaz poderia ser redescoberta, alinhando a revegetação com a regularização fundiária e a reabilitação da infraestrutura de transporte coletivo, em alternativa à atual reprodução estéril de avenidas asfaltadas para os automóveis. Hoje, num momento em que a cidade prepara investimentos vultuosos em mobilidade, faz-se necessária a discussão: será possível recuperar a importância histórica e econômica da Estrada de Ferro Goyaz para a memória de Goiânia, alinhada às necessidades atuais de mobilidade, recuperação ambiental e intervenções em assentamentos precários?

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High Line em New York

 

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Promenade Plantée em Paris

 

O que deve uma comunidade fazer com a sua terra que não é utilizada? Pam Warhurst, co-fundadora do projeto Incredible Edible, explica como conseguiu, com a ajuda de uma equipa crescente de voluntários, tornar a terra não utilizada da sua pequena cidade em jardins vegetais comunitários e caminhos comestíveis, revolucionando a vida e a economia da sua comunidade.

Em Todmorden,  pequena cidade inglesa situada perto de Manchester, há hortas e árvores de fruto em toda a parte onde qualquer um se pode servir.

O projeto “Incredible Edible” (“Incrivelmente Comestível”) teve início há poucos anos e pretende estimular o espírito comunitário através daquilo que nos é essencial a todos: o alimento.

Inicialmente a ideia foi apresentada à comunidade numa sessão pública e recebeu logo o apoio de todos. Não foi necessário fazer pedidos de autorização, redigir relatórios ou procurar financiamento. Simplesmente fez-se e toda a comunidade contribuiu.

O terreno baldio que ladeia a estrada principal, antes usado apenas pelos cães para fazerem as suas necessidades, transformou-se num jardim de ervas aromáticas. Nos parques e nas escolas da cidade surgiram pequenas hortas comunitárias. Na esquadra da polícia nasceram feijões, junto ao centro de saúde árvores de fruto e no cemitério hortaliças. Esta iniciativa não só uniu a comunidade, como tornou a cidade num ponto de atração turística.

A página oficial do Incredible Edible pode ser consultada aqui.