Foi o ato de caminhar que levou a humanidade à criação da arquitetura e, consequentemente, das cidades. A necessidade de alimentação e de construção simbólica do território para a garantia da sobrevivência levou os caçadores e os pastores do paleolítico a situarem no espaço natural o primeiro objeto marco da antropização – o menir – a partir do qual se desenvolveu toda a arquitetura.

Até hoje, as escolhas que as pessoas fazem das ruas, avenidas e passarelas que percorrem, influenciam diretamente na forma como elas se relacionam com a cidade e com as outras pessoas.

No entanto, a priorização dos veículos motorizados em detrimento aos modos saudáveis de transporte tem consumido o espaço urbano com infraestruturas dedicadas aos fluxos de automóveis, em detrimento ao pedestre e ao ato de caminhar, ainda que a maior parte dos deslocamentos pelas cidades continue sendo feita a pé.

As infraestruturas dedicadas aos pedestres, com menor valor na construção capitalista do espaço urbano, geralmente oferecem às pessoas experiências negativas e passam a ser evitadas, revelando um círculo vicioso: as pessoas evitam andar pelas ruas e as cidades seguem sendo construídas só para os carros.

Com o objetivo de familiarizar as pessoas com as ruas das cidades, a comunidade internacional Jane’s Walk promove passeios comunitários a pé desde 2008, quando foi fundada na cidade de Toronto/CA. A ideia é aproximar as pessoas dos espaços públicos da cidade, incentivando-as a lutarem por melhores condições, fortalecendo assim a vida comunitária. Tudo isso através do ato de caminhar.

A Sobreurbana, que desde sua inauguração em dezembro de 2013 tem promovido desses passeios na cidade de Goiânia, realizou em 21 de setembro de 2014, no âmbito da Semana da Mobilidade, o Jane’s Walk Mais Vida Menos Motor, com o objetivo de discutir sobre mobilidade urbana na perspectiva do pedestre. A atividade aconteceu através de uma parceria com a arquiteta Ana Paula Borba e o ambientalista e cicloativista Uirá Lourenço que levaram pela primeira vez os Jane’s Walks à capital federal. No mesmo dia realizamos um passeio em Brasília e outro em Goiânia, promovendo a mesma discussão e ainda colaborando com a Campanha Sinalize do Portal Mobilize Brasil, através de um questionário sobre a qualidade da sinalização para o pedestre nos trechos percorridos. Dessa avaliação surgiu uma média atribuída a cada trecho de cada cidade, inserida na plataforma on line da campanha, visível neste link. Para as duas cidades a avaliação foi muito negativa.

Goiânia e Brasília são duas cidades planejadas e construídas no sertão do país na primeira metade do século passado, ambas com a função de sediar o poder político – a primeira do estado de Goiás e a segunda do governo federal. As duas cidades foram construídas através de grandes projetos de planejamento urbano, que na época supervalorizavam o advento do automóvel. Como resultado, apresentam malhas viárias muito diferentes uma da outra mas ambas sugerem a segregação, longas distâncias e a alta velocidade, pesadelos diários para pedestres e ciclistas.

Em Goiânia o passeio teve início na Praça Cívica e percorreu importantes avenidas, ruas e alguns becos do Setor Central, buscando observar as diferentes infraestruturas da mobilidade urbana lá instalada: ruas dedicadas ao incentivo da velocidade dos carros, corredores exclusivos do transporte coletivo, sua única rua pedonal, becos e ciclovia. Quinze pessoas compareceram, num domingo atípico devido à realização de várias outras manifestações sociais na cidade, como a Caminhada pelo Clima e a Parada Gay. A discussão ao longo do passeio foi sobre como nós pedestres nos colocamos no meio disso tudo, uma reflexão que passa pela questão da apropriação dos espaços públicos da cidade.

Ao final do percurso os participantes responderam a um questionário com perguntas sobre a experiência do passeio e os espaços visitados. Sobre alguma surpresa que tivessem tido durante o percurso, foi quase unânime a descoberta dos becos do centro da cidade. Desenhados no projeto inicial para serem ruas de serviço (como a coleta de lixo, carga e descarga…) os becos permanecem na malha da cidade como espaços residuais pouco visíveis, e vem sendo tomados por estacionamentos particulares. Questionados sobre a satisfação em relação à situação atual da Praça Cívica, as respostas sempre apontaram para a necessidade de aumentar a arborização, retirar a pavimentação asfáltica e o uso como estacionamento, devolvendo-a aos pedestres. Vale dizer que hoje, cinco meses depois do passeio, a Praça Cívica passa por uma reforma polêmica e muito pouco discutida na cidade, que interfere exatamente nos pontos levantados pelos participantes. Sobre a experiência do Jane’s Walk, as respostas revelaram o prazer em redescobrir a cidade, compartilhando dos vários pontos de vistas e experiências dos participantes, o que nos faz concluir que cumprimos nosso objetivo com o passeio.

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Para o caso de Brasília, o percurso teve início no estacionamento de uma entrequadra (208/408 norte) que fica ao lado de um posto de saúde e contou com 31 participantes, dentre eles, quatro crianças e uma cadela (que não entrou na contagem).

Surpreendente notar que durante o percurso havia o nítido desconhecimento dos espaços pelos participantes, que na maioria, moravam na redondeza do trajeto escolhido, mas só o conhecia por meio dos deslocamentos diários dentro de seus veículos.

Alguns dos pontos debatidos durante o percurso e que são cruciais para o impedimento de uma mobilidade urbana fluida foram: (a) grandes áreas vazias e sem infraestrutura pedonal, (b) presença de vias expressas dividindo a cidade e sendo uma barreira física aos deslocamentos não motorizados, (c) barreiras ao nível do pé (escadas, rampas com alta inclinação, espaços estreitos, etc.), (d) uso compartilhado da ciclovia, provocando certo conflito entre pedestres e ciclistas,  principalmente para pessoas com mobilidade reduzida, etc. Com isso, ratifica-se (mais uma vez) que o desenho da cidade provoca um distanciamento cada vez maior entre os espaços e os seus usuários no que tange a escala humana, fomentando, portanto, o uso desmedido dos veículos motorizados.

Assim como em Goiânia, realizou-se também a análise da sinalização pedonal durante o percurso – considerada em média pelos participantes como muito ruim –, além do preenchimento do mesmo questionário, em que o primeiro item destinava-se a completar a frase em relação ao Eixão: “Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava eu mandava…”, interessante notar como a grande maioria, sendo motoristas no dia a dia, mas ali por algumas horas “estavam” pedestres e sentiram a cidade na escala humana e não na motorizada, se deram conta de que aquele poderia ser sim um local de contemplação, com mais arborização, “mais vida e menos motor”.

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Texto escrito com a colaboração de Ana Paula Borba e Uirá Lourenço.