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Foi o ato de caminhar que levou a humanidade à criação da arquitetura e, consequentemente, das cidades. A necessidade de alimentação e de construção simbólica do território para a garantia da sobrevivência levou os caçadores e os pastores do paleolítico a situarem no espaço natural o primeiro objeto marco da antropização – o menir – a partir do qual se desenvolveu toda a arquitetura.

Até hoje, as escolhas que as pessoas fazem das ruas, avenidas e passarelas que percorrem, influenciam diretamente na forma como elas se relacionam com a cidade e com as outras pessoas.

No entanto, a priorização dos veículos motorizados em detrimento aos modos saudáveis de transporte tem consumido o espaço urbano com infraestruturas dedicadas aos fluxos de automóveis, em detrimento ao pedestre e ao ato de caminhar, ainda que a maior parte dos deslocamentos pelas cidades continue sendo feita a pé.

As infraestruturas dedicadas aos pedestres, com menor valor na construção capitalista do espaço urbano, geralmente oferecem às pessoas experiências negativas e passam a ser evitadas, revelando um círculo vicioso: as pessoas evitam andar pelas ruas e as cidades seguem sendo construídas só para os carros.

Com o objetivo de familiarizar as pessoas com as ruas das cidades, a comunidade internacional Jane’s Walk promove passeios comunitários a pé desde 2008, quando foi fundada na cidade de Toronto/CA. A ideia é aproximar as pessoas dos espaços públicos da cidade, incentivando-as a lutarem por melhores condições, fortalecendo assim a vida comunitária. Tudo isso através do ato de caminhar.

A Sobreurbana, que desde sua inauguração em dezembro de 2013 tem promovido desses passeios na cidade de Goiânia, realizou em 21 de setembro de 2014, no âmbito da Semana da Mobilidade, o Jane’s Walk Mais Vida Menos Motor, com o objetivo de discutir sobre mobilidade urbana na perspectiva do pedestre. A atividade aconteceu através de uma parceria com a arquiteta Ana Paula Borba e o ambientalista e cicloativista Uirá Lourenço que levaram pela primeira vez os Jane’s Walks à capital federal. No mesmo dia realizamos um passeio em Brasília e outro em Goiânia, promovendo a mesma discussão e ainda colaborando com a Campanha Sinalize do Portal Mobilize Brasil, através de um questionário sobre a qualidade da sinalização para o pedestre nos trechos percorridos. Dessa avaliação surgiu uma média atribuída a cada trecho de cada cidade, inserida na plataforma on line da campanha, visível neste link. Para as duas cidades a avaliação foi muito negativa.

Goiânia e Brasília são duas cidades planejadas e construídas no sertão do país na primeira metade do século passado, ambas com a função de sediar o poder político – a primeira do estado de Goiás e a segunda do governo federal. As duas cidades foram construídas através de grandes projetos de planejamento urbano, que na época supervalorizavam o advento do automóvel. Como resultado, apresentam malhas viárias muito diferentes uma da outra mas ambas sugerem a segregação, longas distâncias e a alta velocidade, pesadelos diários para pedestres e ciclistas.

Em Goiânia o passeio teve início na Praça Cívica e percorreu importantes avenidas, ruas e alguns becos do Setor Central, buscando observar as diferentes infraestruturas da mobilidade urbana lá instalada: ruas dedicadas ao incentivo da velocidade dos carros, corredores exclusivos do transporte coletivo, sua única rua pedonal, becos e ciclovia. Quinze pessoas compareceram, num domingo atípico devido à realização de várias outras manifestações sociais na cidade, como a Caminhada pelo Clima e a Parada Gay. A discussão ao longo do passeio foi sobre como nós pedestres nos colocamos no meio disso tudo, uma reflexão que passa pela questão da apropriação dos espaços públicos da cidade.

Ao final do percurso os participantes responderam a um questionário com perguntas sobre a experiência do passeio e os espaços visitados. Sobre alguma surpresa que tivessem tido durante o percurso, foi quase unânime a descoberta dos becos do centro da cidade. Desenhados no projeto inicial para serem ruas de serviço (como a coleta de lixo, carga e descarga…) os becos permanecem na malha da cidade como espaços residuais pouco visíveis, e vem sendo tomados por estacionamentos particulares. Questionados sobre a satisfação em relação à situação atual da Praça Cívica, as respostas sempre apontaram para a necessidade de aumentar a arborização, retirar a pavimentação asfáltica e o uso como estacionamento, devolvendo-a aos pedestres. Vale dizer que hoje, cinco meses depois do passeio, a Praça Cívica passa por uma reforma polêmica e muito pouco discutida na cidade, que interfere exatamente nos pontos levantados pelos participantes. Sobre a experiência do Jane’s Walk, as respostas revelaram o prazer em redescobrir a cidade, compartilhando dos vários pontos de vistas e experiências dos participantes, o que nos faz concluir que cumprimos nosso objetivo com o passeio.

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Para o caso de Brasília, o percurso teve início no estacionamento de uma entrequadra (208/408 norte) que fica ao lado de um posto de saúde e contou com 31 participantes, dentre eles, quatro crianças e uma cadela (que não entrou na contagem).

Surpreendente notar que durante o percurso havia o nítido desconhecimento dos espaços pelos participantes, que na maioria, moravam na redondeza do trajeto escolhido, mas só o conhecia por meio dos deslocamentos diários dentro de seus veículos.

Alguns dos pontos debatidos durante o percurso e que são cruciais para o impedimento de uma mobilidade urbana fluida foram: (a) grandes áreas vazias e sem infraestrutura pedonal, (b) presença de vias expressas dividindo a cidade e sendo uma barreira física aos deslocamentos não motorizados, (c) barreiras ao nível do pé (escadas, rampas com alta inclinação, espaços estreitos, etc.), (d) uso compartilhado da ciclovia, provocando certo conflito entre pedestres e ciclistas,  principalmente para pessoas com mobilidade reduzida, etc. Com isso, ratifica-se (mais uma vez) que o desenho da cidade provoca um distanciamento cada vez maior entre os espaços e os seus usuários no que tange a escala humana, fomentando, portanto, o uso desmedido dos veículos motorizados.

Assim como em Goiânia, realizou-se também a análise da sinalização pedonal durante o percurso – considerada em média pelos participantes como muito ruim –, além do preenchimento do mesmo questionário, em que o primeiro item destinava-se a completar a frase em relação ao Eixão: “Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava eu mandava…”, interessante notar como a grande maioria, sendo motoristas no dia a dia, mas ali por algumas horas “estavam” pedestres e sentiram a cidade na escala humana e não na motorizada, se deram conta de que aquele poderia ser sim um local de contemplação, com mais arborização, “mais vida e menos motor”.

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Texto escrito com a colaboração de Ana Paula Borba e Uirá Lourenço.

Foi com muito suor e prazer que a Sobreurbana realizou entre 24 e 30 de novembro/14 a 1ª Semana da ecologia Urbana de Goiânia. E esperamos que tenha sido a primeira de muitas oportunidades para aprendermos a construir uma cidade onde todos nós caibamos nela, junto com os prédios, as ruas, as árvores, os rios, o sol, o céu, os bichos, em harmonia.

Nossa programação buscou sensibilizar e preparar tecnicamente para a construção da resiliência da nossa cidade, tratando de temas como: infraestruturas urbanas verdes, serviços ecossistêmicos, desenho sensível à água e a permacultura, com destaque para alguns de seus artifícios como os telhados vivos, os jardins de chuva e os jardins verticais; o movimento de transição e a metodologia cradle to cradle; o cicloativismo, a agricultura urbana e a sustentabilidade do mercado frente aos desafios da escassez de recursos e as mudanças climáticas. Iniciamos a discussão com a exibição do filme “Home – Nosso Planeta, Nossa Casa” e encerramos com um passeio para observar e conhecer as árvores da cidade. E ainda iniciamos juntos, e a partir do absorvido ao longo da semana, uma “Carta para Goiânia”, onde vamos pontuar as questões que entendermos necessárias para a nossa cidade, resultando em um documento que oriente nossas ações futuras e reivindicações ao governo, além de formar a pauta para a próxima Semana da Ecologia, em 2015. Esse processo está sendo conduzido pelo murAU de Ideias.

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Essa intensa e diversificada programação que conseguimos montar, só foi possível devido a parceria que estabelecemos com vários indivíduos, grupos e instituições: o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás – CAU/GO e o Sindicato dos Arquitetos de Goiás, que foram os primeiros a acreditarem e apoiarem o projeto; Mr. Dusty Gedge e Mr. Gary Grant, do Green Infrastructure People, que nos inspiraram a idealizar o evento; a PUC Goiás, especialmente através do Departamento de Artes e Arquitetura e do Centro Acadêmico Livre da Escola de Arquitetura – CALEA; a Prefeitura Municipal de Goiânia, especificamente através do Departamento de Agricultura Familiar da SEMIC; o Programa de Pós-graduação Projeto e Cidade da UFG; Sebrae Goiás; a ANTP – Regional Centro-Oeste; o projeto “O Futuro da Minha Cidade” através do SINDUSCON, ADEMI e SECOVI; Tyba Hostel; Cine Cultura; nossos palestrantes, oficineiros e fornecedores; Elisa França e Maria Ester, fundamentais para os trabalhos de divulgação e produção do evento; aos amigos Áureo Rosa, Carolina Camargo, Diogo Santos e tantos outros que de alguma forma nos apoiaram e acreditaram na importância desse projeto. Muito obrigada!

ECOLOGIA URBANA é uma recente área de estudo que, extrapolando a ideia de natureza virgem trabalhada pela ecologia tradicional, busca compreender o ecossistema da cidade, um amálgama de natureza e artificialidade, a maior invenção humana. Mas, como em todos as nossas criações, às vezes acertamos, às vezes erramos. Em relação às cidades e ao impacto que elas causam ao planeta, não temos mais tempo para tantos erros. E temos muita informação para nos convencermos de que os recursos naturais do planeta não são infinitos e que tudo acontece nele numa relação muita clara de causa e efeito. Se somos todos frutos de um grande Big Bang, somos todos partículas de uma mesma célula chamada universo. É infantil e equivocado olhar para os seres humanos como seres superiores aos outros animais, às pedras, ou às ervas daninhas. Ou aprendemos a coexistir numa relação de equilíbrio com todas as partes do ecossistema, ou seremos em breve eliminados dessa equação.

Por isso as CIDADES são o objeto de estudo da vez. O relatório “Perspectivas Globais de Urbanização”, lançado pela ONU em julho deste ano, aponta que em 2050 seremos 6 bilhões de seres humanos na Terra, dos quais 66% viverão em cidades. Esse processo de urbanização intensa é muito recente na história do planeta, e muito injusto. Estudos apontam que 20% das pessoas no mundo consomem o equivalente a 80% dos recursos disponíveis. Esse desequilíbrio se deve em grande parte aos processos de urbanização que conduzimos, baseados no consumo exacerbado de todas as coisas e no crescimento irracional em todas as direções. Esse modelo não tem sido positivo nem para o planeta e nem para nós. Precisamos fazer diferente.

Como? Utilizando a arborização como forma de garantir a qualidade do ar e de amenizar os efeitos das ilhas de calor; gerindo melhor os fluxos da água, seja no solo, nos mananciais ou no ar; formando corredores verdes com a trama de parques, a fim de manter a biodiversidade da fauna e da flora; reduzindo, reutilizando e reciclando tudo, sempre; utilizando energia limpa; plantando alimentos mais perto de onde estão as pessoas; diminuindo a nossa dependência dos automóveis; aprendendo tolerância e cooperação entre pessoas e comunidades; e tantas outras possibilidades de harmonia entre o ambiente construído e a natureza.

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A SOBREURBANA é um estúdio criado ano passado aqui em Goiânia para o desenvolvimento de intervenções urbanas e gestão cultural. Nosso propósito é contribuir para a transição da cidade que temos hoje para uma cidade mais tolerante, justa, saudável e centrada nas pessoas. Acreditamos em e trabalhamos para o empoderamento das pessoas nas tomadas de decisões e na construção de ambientes mais aprazíveis e dignos. E sabemos que o protagonismo das comunidades depende de uma relação de maior afeto e cuidado entre pessoas e lugares, do entendimento de que nós, pessoas, somos a nossa cidade. Nesse sentido, a 1ª Semana da Ecologia Urbana de Goiânia é para nós, Sobreurbana, um marco que encerra nosso primeiro ano de ações voltadas para a sensibilização das pessoas em torno das questões urbanas, do ambiente que construímos.

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Que venha 2015 e muitas outras Semanas cheias de Ecologia Urbana!

Segundo o PPS – Project for Public Spaces, principal organização para a difusão desse conceito, Placemaking é, como o nome sugere, a criação de ‘lugares’. A ideia é, a partir dos desejos e da criatividade da própria comunidade, transformar um espaço em um lugar e fazer dele o coração da comunidade.

O PPS foi criado a partir do trabalho coordenado pelo urbanista William Whyte que estudou na década de 80 o comportamento das pessoas pelos espaços públicos, especialmente em cidades norte americanas. A partir daí foi desenvolvido todo um arcabouço técnico e teórico para a criação de espaços públicos voltados para e a partir das necessidades humanas. Nós já falamos dos instrumentos do PPS aqui. Atualmente o PPS trabalha em projetos e consultorias em cidades do mundo inteiro, inclusive em Brasília, estigma do planejamento urbano de prancheta.

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No começo de setembro passado, a Sobreurbana esteve na Conferência Internacional Future of Places – Streets as Public Spaces and Drivers of Urban Prosperity, que aconteceu em Buenos Aires. Esta foi a segunda de uma série de três conferências propostas pelo PPS em parceria com a UN Habitat e financiado pela Ax:son Johnson Foundation, que vão subsidiar as reuniões preparatórias para a formulação da agenda mundial pós-2015 para o Desenvolvimento Sustentável, bem como a próxima reunião da Habitat III. O objetivo geral dessas conferências é defender na agenda mundial a importância do espaço público e do placemaking dentro do planejamento urbano.

Em meio a cerca de 300 pessoas de mais de 40 países dos cinco continentes, e ao lado de nomes como Fred Kent, fundador do PPS, e de David Sim, diretor criativo do Gehl Architects, a Sobreurbana apresentou em Buenos Aires sua experiência em Goiânia com a realização dos Jane’s Walks. A conferência reuniu um conteúdo muito rico quanto a produção acadêmica mas principalmente quanto a realizações de pessoas, organizações, empresas e governos que estão agindo pela ativação das ruas e outros espaços públicos com foco nas pessoas.

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Influenciados pela forte presença de brasileiros na conferência, foi decretada a criação do Conselho Brasileiro de Placemaking, que se reunirá pela primeira vez já na próxima segunda-feira dia  06/10/14 em São Paulo. Esperamos com este Conselho conseguir inserir na agenda política brasileira a necessidade de voltarmos o planejamento urbano para as reais demandas das comunidades, com um planejamento e um desenho voltados para as pessoas, que busque o protagonismo e o empoderamento da população, na busca de um ambiente urbano melhor para vivermos nesta e nas futuras gerações.

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Encerrando a participação de Goiânia no Festival Jane’s Walk 2014, a Hábil Produção conduziu um passeio pelas áreas verdes do Setor Sul, dando início a seu projeto de mapeamento da arte urbana em Goiânia, o MUdA.

A proposta foi discutir sobre ocupação e apropriação dos espaços públicos da cidade, tendo a arte como um agente de transformação na relação entre as pessoas e os ambientes urbanos. O passeio partiu do Bacião e percorreu várias áreas emblemáticas como o Bosque dos Pássaros, instituído pelos moradores do entorno como área de preservação ambiental.

 

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O St. Sul compõe o Plano Inicial de Goiânia, tendo sido concebido segundo a proposta de cidade-jardim. Sua malha é formada por uma rede de áreas verdes projetadas para ser a alma do bairro: seria possível atravessar todo o St. Sul percorrendo somente essas áreas verdes. Seria, mas o resultado foi um tanto desastroso. As pessoas que vieram ocupar o bairro construíram suas casas de costas para essas áreas e de frente para as vielas, projetadas para serem somente acessos de serviço às residências. Essa forma de implantação das edificações desvirtuou a proposta para o bairro, na medida em que as áreas verdes resultaram em espaços residuais, nunca de fato apropriadas pelos moradores.

Entre as décadas de 70 e 80, o governo federal implantou no bairro o Projeto CURA – Comunidade Urbana para Recuperação Acelerada, com a proposta de instalar equipamentos urbanos em suas áreas verdes, que já existiam a mais de 20 anos sem bancos, iluminação, passeios etc. O projeto nunca chegou a ser finalizado e, com poucas exceções, enfrentou duras reações dos moradores locais. Eles achavam que os novos equipamentos atraiam moradores dos bairros pobres vizinhos (como o Setor Pedro Ludovico), e que as atividades lhes tiravam o sossego.

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Essas áreas, de localização central na cidade e que são, provavelmente, uma das maiores proporções de áreas públicas em um bairro, no mundo, estão sucateadas, cheias de mato, lixo e, recentemente, invadidas pela arte urbana, de alta qualidade. É incrível o potencial dessas áreas, altamente arborizadas, com ótima vocação para mobilidade não motorizada e para a prática de esportes e lazer. Mais incrível ainda é o fato de que muitos moradores locais que tanto se apavoram com a invasão dos ‘indesejáveis’, sequer conhecem e desfrutam desse tesouro.

Foi o que captamos durante as discussões e depois com o questionário aplicado no passeio pela Sobreurbana. Perguntados sobre de que forma a experiência do Jane’s Walk alterou a relação dos participantes com a área visitada, a maior parte das respostas continha as palavras descoberta e conhecimento. Por unanimidade reconheceram a arte urbana do local com potencial para uma galeria aberta que Goiânia ainda não possui, assim como registraram a necessidade de promover intervenções nessas áreas. Essa necessidade de intervenção apela por maiores cuidados, mobiliário urbano, iluminação e políticas culturais, de ocupação e para a convivência social.

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Já começando uma forma de ocupação dessas áreas através de sua apropriação cultural, o projeto MUdA iniciou durante o passeio o mapeamento da arte urbana local, através do registro fotográfico e de localização das obras. O projeto também prevê outras ações de ocupação neste bairro e noutros pontos da cidade. Assim esperamos que o MUdA e o Jane’s Walk contribuam positivamente para as discussões que pretendem devolver às pessoas espaços urbanos de qualidade para a interação social.

Veja aqui mais fotos do passeio!

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O segundo passeio do Festival Jane’s Walk 2014 em Goiânia aconteceu no dia 03/05 e foi conduzido pelo murAU de Ideias. O local escolhido foi o Setor Pedro Ludovico, especialmente no entorno do Jardim Botânico. A região é hoje alvo de um projeto em elaboração por empresas imobiliárias da cidade, apresentado à prefeitura nos moldes de uma Operação Urbana Consorciada. A proposta é adensar e verticalizar a região do entorno do maior parque urbano de Goiânia, o que ameaça a sua preservação ambiental, e num de seus mais tradicionais bairros, podendo alterar radicalmente a sua dinâmica de vizinhança.

Partindo do cruzamento entre a Av. 4ª Radial e a Av. Circular, o passeio contou com a participação de moradores locais e de pessoas de outras partes da cidade, interessados na possibilidade de discutir sobre os rumos de Goiânia. Alguns dos participantes nunca tinham ido ao Jd. Botânico e não tinham ideia da vitalidade do St. Pedro.

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O bairro foi o último construído pelo estado, aquando da implantação da cidade. Na época, a região era marginalizada e atraiu famílias humildes, das quais muitas permanecem no bairro até hoje. Com o crescimento da cidade, o bairro tornou-se central e firmou-se na malha urbana em situações muito diversas entre si: a parte mais perto do Areião pediu sua emancipação como St. Marista, porque não queria estar associada ao ‘povo da macambira’. A parte mais próxima ao Jd. Botânico possui famílias vivendo em situações de risco habitacional e social.

Apesar de seu traçado urbano interessante, formado por várias alamedas arborizadas e implantado entre dois importantes parques (o Jd. Botânico e o Parque Areião), o St. Pedro foi historicamente esquecido pelas gestões municipais da cidade e o Jd. Botânico quase sempre esteve sucateado. Não por acaso a bondade das empresas imobiliárias da cidade agora foi revelada através de um ‘plano de salvação’ para o bairro. O projeto ainda não foi apresentado para a sociedade mas, se seguir a lógica vigente de produção do espaço urbano em Goiânia, podemos prever a construção de altas torres residenciais para a classe média alta, que vão drenar o lençol freático do Córrego Botafogo (com uma de suas nascentes no Jd. Botânico), e expulsar a população tradicional do bairro que não conseguirá suportar o ‘desenvolvimento’ local.

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Diante disso, discutimos durante o passeio sobre o tipo de bairro que queremos, contribuindo para o fortalecimento do envolvimento comunitário nesse assunto de tamanha importância para a cidade e, principalmente, para os moradores daquela região.

Do questionário aplicado pela Sobreurbana, tiramos conclusões interessantes. Perguntados sobre o que lhes vem à mente quando pensam naquele bairro, as respostas trouxeram as palavras comunidade, tradição, lar e a percepção de que o bairro é um dos últimos ainda não destruídos pela especulação imobiliária. Sobre a forma como a experiência do Jane’s Walk interferiu na relação dos participantes com a área visitada, as respostas registraram a urgência de defender o bairro. Todos responderam pela necessidade de promover intervenções no St. Pedro, mas não pelo adensamento ou verticalização como propõem as empresas imobiliárias, mas por infraestrutura urbana básica, como calçadas, limpeza, iluminação.

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O bom desenvolvimento urbano respeita as necessidades das pessoas, antes das necessidades das empresas. Na última segunda-feira, dia 19/05, aconteceu um seminário sobre Operação Urbana Consorciada, onde ficou claro para os presentes que não existe nenhum plano da prefeitura em favor do bem-estar coletivo. A proposta atende unicamente a uma oportunidade de mercado enxergada pelas empresas que detém o capital econômico na produção da cidade. Mas também ficou claro neste evento e no Jane’s Walk que a população está atenta e sabe o tipo de ambiente que quer para morar. Que a cidade saiba tomar a melhor decisão!

Veja aqui mais fotos do passeio!

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Foto: Design da Cidade

Abrindo o Festival Jane’s Walk 2014 em Goiânia, o Design da Cidade conduziu-nos por uma verdadeira Caça ao Córrego Buriti. A proposta foi discutir a forma como nós lidamos com a água dentro das cidades. O Córrego Buriti está há décadas completamente enterrado, assim como outros cursos d’água de Goiânia. São oportunidades perdidas na cidade para integração com a natureza, espaços de lazer e contemplação, garantia da qualidade ambiental.

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Assim, no dia 02/05, partimos da frente do Clube dos Oficiais, no St. Marista, na tentativa de resgatar o percurso original do córrego. O local de partida não foi escolhido por acaso: o clube guarda um pequeno lago que protege a nascente do Córrego Buriti. Uma grata surpresa a todos os participantes: um verdadeiro oásis, com buritis remanescentes da vegetação nativa e uma mata criada pelo reflorestamento promovido pelo clube.

Durante a visita ao lago, o Sargento Gonçalves falou sobre as dificuldades do clube em manter aquele tesouro, especialmente depois da construção de uma torre residencial a poucos metros dali. Para a construção do prédio e seus subsolos com estacionamentos, foi ‘necessário’ o rebaixamento do lençol freático. Como conseqüência, o nível d’água do lago também foi rebaixado, passando a depender do bombeamento dessa água de volta para a região da nascente, através de bombas que ficam sob a guarda do condomínio do prédio.

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O mais triste dessa história é que isso não é um fato isolado. Acontece o mesmo em todas as regiões de verticalização no entorno de cursos d’água. Quanto mais alta a construção em direção ao céu, mais profunda a sua fundação. Quanto mais dependente de automóveis é a nossa sociedade, maior a necessidade de áreas para estacionamento, nesses casos, sempre em subsolos. Em Goiânia esse desastre ambiental também está deflagrado no Parque Vaca Brava, no Parque Flamboyant, no Parque Cascavel e agora ameaça o Jardim Botânico. Isso é comum mas não é justo, portanto é fundamental que a cidade discuta sobre isso: que desenvolvimento é esse que traz consigo a destruição ambiental do nosso habitat?

Historicamente as cidades sempre tiveram uma ligação íntima com a água: cidades espontâneas nascem ao longo de cursos d’água para terem esse suprimento garantido. E mesmo sendo ‘modernos’ nós ainda mantemos uma forte identificação com a água. Nossa perspectiva de lazer e descanso quase sempre envolve esse elemento natural. Por que as cidades estão nos privando disso?

Fora esse impacto cultural, tem o impacto na infraestrutura urbana. O córrego buriti foi enterrado pra dar espaço para a ‘urbanização’. Daí, essa área então urbanizada passa a sofrer eternamente com enchentes porque há ruas e prédios onde deveria haver o curso d’água e mata ciliar para suportar o escoamento das águas das chuvas. Você enterra um córrego mas não modifica a topografia da bacia. Toda a chuva que cai em boa parte do St. Marista, Oeste e Sul escoam naturalmente para a ‘calha’ do Buriti. É um desastre. Enterrado, o Córrego Buriti está longe dos nossos olhos, mas continua compondo a estrutura ambiental e abastecendo a bacia do Meia Ponte. E se ele secar? Perdemos mais um bocado de um de nossos mais valiosos tesouros que é a água.

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Foto: Design da Cidade

Durante o passeio, o Design da Cidade colou adesivos marcando o percurso original do córrego. Quem passar pela região poderá percebê-los na grelha da Rua 87 junto à Av. Cora Coralina, no muro do Externato São José, no interior do prédio do Tribunal de Justiça, até a água vir à superfície novamente no Bosque dos Buritis, onde encerramos o passeio naquele dia. É de ressaltar a incidência de construções emblemáticas que dependeram da canalização do córrego. Além das já citadas, também foram construídos sobre o Córrego Buriti: o prédio do Ateneu Dom Bosco, o estacionamento nos fundos do Joquei Clube (que até poucos anos atrás continha um pequeno bosque onde a água aflorava), o Centro de Convenções e outros menores até a canalização desaguar no Córrego Capim Puba, atrás da Av. Independência.

No final do passeio, a Sobreurbana aplicou um pequeno questionário aos participantes, que revelaram disponibilidade de participar de outro passeio, onde houver. Disseram que o Jane’s Walk mudou a relação deles com a área visitada, ao revelar as questões discutidas sobre o córrego, que alguns nem sabiam que estava enterrado, e que portanto ficarão mais atentos, sabendo que há vida embaixo da cidade. Perguntados sobre a necessidade de promover alguma mudança na área visitada, as respostas foram unânimes: sim! Sim, pela indicação do que está enterrado, pela revitalização, preservação e disponibilização do nosso tesouro.

Além do prazer de caminhar pela cidade e da importância de confrontar as pessoas com os problemas urbanos causados pela nossa sociedade, a experiência da Caça ao Córrego Buriti nos deixa a possibilidade de aprender com a triste história do córrego que a natureza jamais se deixará ser domada: nós é que somos moldados conforme o ambiente que habitamos e modificamos.

Veja aqui mais fotos do passeio.

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A cidade é mais do que um mero espaço físico onde vive um conjunto de pessoas. Ela é também um espaço de convivência, que abriga, acolhe e potencia as relações sociais. É para as pessoas, para as suas interrelações, que a cidade deve ser pensada. A valorização do pedestre assume assim um papel fulcral, pois é no seu tempo, e não no do carro, que essas relações acontecem genuinamente. A cidade que é amigável com o pedestre é uma cidade que convida para a urbanidade, que suporta e ativa a vida social e a vida pública. E a vida pública, que se desenrola nas praças e nas calçadas, é o que nos garante a segurança emocional que viemos buscar quando construímos cidades para viver em comunidade.

O Jane’s Walk é uma proposta que busca fortalecer comunidades, o sentimento de pertencimento e encorajar o engajamento cívico nas causas urbanas, através da vivência das ruas da cidade. Criado em Toronto sob a inspiração das idéias de Jane Jacobs, a instituição promove desde 2007 passeios comunitários a pé, organizados voluntariamente, para levar as pessoas a explorar e conhecer melhor o bairro e a cidade onde vivem. Durante o Festival Anual Jane’s Walk, que decorreu este ano entre 2 e 4 de Maio, mais de 1000 passeios aconteceram no mundo inteiro. No Brasil, participaram as cidades de Goiânia e Curitiba.

Foto by Júlia Mariano

Foto by Júlia Mariano

O primeiro Jane’s Walk em Goiânia foi promovido em dezembro do ano passado, na Av. Cora Coralina, uma avenida que cortou a direito várias praças e vielas do Setor Sul, desumanizando parte desse bairro histórico. Nesse passeio, os participantes demonstraram grande satisfação com a experiência de viver a cidade a pé, com olhos críticos e conscientes do papel do cidadão na construção da cidade que queremos. Isso incentivou-nos a participar pela primeira vez na edição anual que acontece em simultâneo em todo mundo.

Nesta primeira participação de Goiânia no Festival a Sobreurbana realizou três passeios em parceria com outras organizações locais: o Design da Cidade, que organizou uma Caça ao Córrego Buriti; o murAU de Ideias, que nos levou numa caminhada pelo Setor Pedro Ludovico; e a Hábil Produção, com quem percorremos as áreas verdes do Setor Sul. Foram três passeios incríveis que revelaram uma Goiânia desconhecida para a esmagadora maioria dos participantes.

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A proposta da Sobreurbana com esses passeios envolve, além da experiência de caminhar pela cidade, a discussão de temas urgentes como a apropriação dos espaços públicos e a qualidade desses ambientes, investigada também através de breves questionários aplicados aos participantes.

Acompanhe nos próximos posts mais detalhes sobre os passeios e as discussões geradas em torno de cada um deles. E prepare-se: virão mais passeios porque a cidade precisa de você NAS RUAS.

Ok, você sabe que Goiânia é uma jovem cidade, planejada no século passado para ser a capital do estado, com arquitetura art déco e uma boa quantidade de parques urbanos que emolduram a sua vida ainda pacata. Mas… você sabia, por exemplo, que é possível caminhar por quase todo o Setor Sul atravessando somente suas áreas verdes, generosas em sombras e arte urbana da mais alta qualidade? Sabia que algumas das áreas mais afetadas com as fortes chuvas são leitos de córregos enterrados sob ruas e edifícios emblemáticos da cidade? Sabia que o tradicional Setor Pedro Ludovico foi o último bairro construído pelo estado, quando da construção de Goiânia e que contém o maior parque urbano da cidade, o Jardim Botânico? E sabia que esse tesouro cultural e ambiental está ameaçado pela mais recente investida da especulação imobiliária, que pretende, com o aval da prefeitura, acinzentar a ainda boa qualidade de vida do bairro com a construção de altas torres e entupindo suas ruas de carros? Venha descobrir tudo isso e muito mais nos três passeios que estamos promovendo em Goiânia. São três excelentes oportunidades para o goianiense conhecer melhor sua cidade e entender como, individual e coletivamente, pode contribuir para melhorá-la. Junte-se a nós e venha se perder e se encontrar nas ruas de Goiânia! Programação Festival Jane’s Walk Goiânia 2014 3 de Maio, manhã: junto com o Design da Cidade iremos em busca do Córrego dos Buritis entre os setores Sul, Oeste e Marista. 3 de Maio, tarde: junto com o murAU, iremos discutir o adensamento, verticalização e preservação ambiental no Setor Pedro Ludovico. 4 de Maio, tarde: junto com a Hábil Produção, iremos percorrer os espaços verdes do Setor Sul e discutir sobre arte e ocupação urbana no âmbito de seu projeto MUdA. Observar e viver a cidade a pé, devagar, apreendendo o seus detalhes, é fundamental para entendermos os porquês de tantos problemas que sofremos em nosso dia-a-dia e cuja solução está em nossas mãos – que faltam se unir – ou em nossos olhos – que estão fechados para o que realmente importa – ou em nossa vozes – acostumadas a se calarem diante das verdades impostas para um coletivo que nunca é ouvido durante a construção privada e autoritária da cidade. Jane’s Walk Em 2007 foi criada em Toronto uma organização chamada Jane’s Walk com a proposta de contribuir para a construção de comunidades mais fortes e engajadas e inspirada nas idéias de Jane Jacobs. Jacobs foi uma ativista de grande influência sobre o pensamento urbanístico atual, que na década de 1960 conseguiu, junto com seus vizinhos, evitar a destruição de bairros tradicionais da cidade de Nova Iorque, onde vivia. Ela conseguiu isso incutindo nas pessoas a perspectiva de que as cidades tem que ser feitas para elas, considerando suas necessidades cotidianas e a segurança emocional advinda da rica e pulsante vida pública que se desenrola pelas calçadas. As calçadas precisam ter vida! E as ruas precisam ter olhos voltados para elas. Para isso, as pessoas precisam se apropriar dos espaços públicos da cidade. Assim, a proposta do Jane’s Walk é promover passeios comunitários liderados por voluntários que desejam revelar os bairros onde vivem, redescobrindo suas cidades e aproximando as pessoas entre elas e em torno da vida urbana, fundamental para a qualidade de vida das cidades. Anualmente, a organização promove o Jane’s Walk Festival, sempre no início do mês de maio, quando seria o aniversário de Jacobs, falecida em 2006. Na mesma data, milhares de pessoas ocupam as ruas de centenas de cidades pelo mundo para celebrarem a vida em comunidade, discutirem sobre os problemas e riquezas de suas cidades, e se redescobrirem nelas. Esta será a segunda vez que a Sobreurbana organiza um Jane’s Walk em Goiânia. O primeiro passeio aconteceu em dezembro do ano passado, na Av. Cora Coralina, Setor Sul, onde se discutiu a qualidade daquele ambiente urbano. _JMF5045