A cidade moderna é repleta de “não-lugares” – espaços ambíguos, que existem fisicamente mas que, ao mesmo tempo, é como se não existissem. Quem lá se encontra só pensa em seguir rapidamente rumo ao seu verdadeiro destino. Os aeroportos, estações ferroviárias, ônibus, autoestradas, parques de estacionamento, etc… são exemplos de “não-lugares”: espaços descaracterizados, impessoais, que não desenvolvem uma relação com as pessoas. São locais de passagem que os indivíduos atravessam de forma anónima e indiferente.

É certo que os chamados não-lugares correspondem a espaços específicos, mas correspondem também a atitudes e posturas que os indivíduos mantêm em relação a esses mesmos espaços e têm representações distintas para as diferentes pessoas que os habitam ou que neles transitam: a experiência de um turista que está em trânsito num determinado aeroporto é bem diferente da do funcionário que lá trabalha diariamente.

Em Nova York há um coletivo que nasceu precisamente dessa observação e através da produção de situações cómicas, busca quebrar a rotina do dia a dia e interferir nessa indiferença, encorajando as pessoas a interagir mais, a observar mais, a sorrir mais. Chama-se Improv Everywhere e, apesar de váras semelhanças, distinguem as suas ações das flash mobs, que surgiram apenas 2 anos ´mais tarde.

Um exemplo muito simples de uma das missões do grupo Improv Everywhere chama-se “Rob wants an Hi5”. A ação decorreu na hora de pico de uma estação de metrô de Nova York onde milhares de pessoas sobem uma longa escada rolante. O Rob, um dos elementos do coletivo, distribuiu cerca de 2.000 high fives durante essa manhã. Cinco elementos do grupo empunhavam cartazes preparando as pessoas para cumprimentar o Rob. O resultado foi uma quebra da rotina através do humor, o que arrancou muitos sorrisos e um sentimento de cumplicidade entre os presentes.

Outro exemplo, mas conhecido, executado com a colaboração de muitos voluntários que simpatizaram com o movimento – cerca de 4.000 pessoas só em Nova York, mais dezenas de milhares de pessoas participando em outras 59 cidades em 27 países do mundo. Chama-se “No pants subway ride”, onde um grande número de pessoas aparece espontaneamente no metrô sem calças. Quem não tem conhecimento da ação é apanhado totalmente de surpresa e a viagem que se previa igual à de tantos outros os dias tem o sabor de uma experiência absolutamente invulgar e cómica.

Não é apenas o espaço em si que o torna lugar ou não-lugar: passa também pela apropriação que as pessoas fazem dele. Mas é importante que o espaço convide a essa apropriação. Em muitas cidades no mundo, o espaço público é muitas vezes encarado como espaço de ninguém.

No Brasil encontramos muitas cidades que parecem ter sido construídas para os carros ao invés de o ser para as pessoas: calçadas quebradas, parques abandonados, condomínios fechados, prédios devolutos no centro da cidade, tornam a rua e o espaço público um local de passagem, desinteressante e inseguro. É importante tornar esses espaços mais atraentes e convidativos para que as pessoas os ocupem, os vivam, se identifiquem com eles. E dessa forma garantir melhor qualidade de vida e um maior respeito pelo que é de todos.