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No último fim de semana aconteceu em Goiânia o “Congresso Nacional Cidade e Sustentabilidade” que promoveu a discussão “A Goiânia que Queremos”. Realizado no Centro Cultural da Universidade Federal de Goiás, o evento decorreu de uma parceria entre esta instituição e a Secretaria Municipal de Cultura e marcou as comemorações do aniversário do Batismo Cultural da cidade, que completará em outubro 80 anos de existência.

O evento contou com várias interessantes e motivantes palestras, a primeira delas proferida pelo jornalista Gilberto Dimenstein que explorou o tema ‘Diversidade Cultural’. Apresentando uma série de intervenções urbanas realizadas na Vila Madalena, em São Paulo, possibilitadas pelo envolvimento da comunidade local, o jornalista ressaltou a importância da diversidade cultural para o surgimento de ambientes criativos. Sugeriu que Goiânia pensasse em seus ‘desperdícios urbanos’ para então buscar unir os pontos da cidade, atraindo as pessoas a ocuparem esses espaços. “Você mede a cidadania de uma cidade pela largura de suas calçadas”, defendeu. Ao final apresentou seu Blog Catraca Livre que há anos divulga eventos e espaços em São Paulo que podem ser usufruídos de graça, e ofereceu à prefeitura de Goiânia a criação de uma plataforma similar sobre a capital goiana. Na segunda palestra do dia, o arquiteto Roberto Montezuma apresentou um estudo desenvolvido para o planejamento ambiental da cidade de Recife, intitulado Árvore da Água, numa proposta inovadora de integração radical entre projetos.

O dia seguinte começou com a fala do jornalista Washington Novaes com o tema “A Cidade Hoje”, explorando os problemas advindos da expansão indiscriminada da cidade sobre infraestruturas deficientes. No momento do debate a professora Ana Guiomar ressaltou que não são nada exploradas em nossa cidade suas dimensões ética e estética: faltam-nos estratégias que tragam às pessoas o prazer de viver a cidade e a administração municipal não se ocupa em preparar cidadãos. O arquiteto Érico Naves Rosa complementou com a necessidade de pensarmos o local, de promovermos além do macro o micro planejamento urbano. Em seguida a professora e arquiteta Marta Romero fez uma interessante apresentação sobre sustentabilidade no contexto urbano, defendendo que qualquer ideia de sustentabilidade deve provar sua operacionalidade. Apresentou a triste constatação de que a degradação urbana geralmente decorre de lacunas na caracterização da demanda e de imperícias técnicas na solução dos problemas e insistiu que a sociedade já possui o conhecimento técnico para fazermos a diferença, falta-nos agora a vontade política. Sobre mobilidade, dentre outros pontos ela defendeu que “Estacionamento não é um direito adquirido, é um problema privado” e reforçou que o consumo de energia nas cidades está diretamente relacionado com a morfologia urbana.

O evento foi encerrado no terceiro dia com a fala da economista Ana Carla Fonseca sobre “Cidades Criativas” como uma proposta de transformação urbana. Tentando contribuir com o contexto local convidou a plateia a pensar no quê que Goiânia tem de singular que pode fazer com que pessoas de outros lugares venham conhecê-la. Com um discurso muito próximo da primeira fala do evento, a do jornalista Gilberto Dimenstein, e muito aderente aos estudos do professor americano Richard Florida, defendeu como base de uma cidade criativa suas inovações, conexões e diversidade cultural.

Ainda que esta última palestra tenha acontecido com a casa cheia o evento foi criticado pelo público reduzido que recebeu nos outros dias, quando estiveram presentes poucos representantes de movimentos sociais e não se percebeu a presença dos legisladores municipais, atores fundamentais para as transformações urbanas que queremos. Apesar disso, foram registrados dois legítimos protestos no espaço do evento: um promovido pela Associação Verde Vale sobre as recentes alterações no Plano Diretor municipal e outro promovido por estudantes sobre a recente demolição de casas históricas no centro da cidade.

a goiania que queremos

Protesto contra a demolição da “Casa da Rua 20” marca congresso e exige providências da Prefeitura sobre o patrimônio edificado da cidade.

Como público presente, arquiteta e sobretudo como cidadã comprometida com a cidade em que resido, penso que temos que ocupar esses espaços de discussão sobre a cidade, para nos fazermos ouvidos, para resgatarmos uma cidadania aparentemente perdida por entre as vias públicas cheias de sujeira, pela poluição visual dos letreiros comerciais e pelo patrimônio edificado degradado que formam a paisagem da nossa cidade. A Goiânia que quero é uma cidade criativa e sustentável, que orgulha-se da sua diversidade cultural, da sua juventude, que preza pelo direito de desfrutarmos de todo o território, que fortalece as relações humanas, que respeita o ambiente, que permite que as pessoas interajam propositivamente com a cidade, construindo-a de baixo para cima.

E você, o que espera para Goiânia?

Dois grupos brasileiros cheios de ótimas intenções:

 

O Grupo Nômade, sediado em Porto Alegre, se propõe a ativar ideias através da colaboração e engajamento. São um think tank, subdividido em dois núcleos: o Estúdio Nômade, que desenvolve projetos de engajamento para empresas e governos, e a Nômade IND, um braço independente do grupo para o desenvolvimento de projetos autorais. Como instrumentos, o grupo utiliza arte, ciência e tecnologia para investigar novas formas de relacionamento entre as organizações e a sociedade.

Destaco dois de seus projetos independentes: o TransvençãoLAB, sediado no Nós Co-working e desenvolvido para criar projetos inovadores para a cidade, através da colaboração e da web. Com pouco tempo de existência já ganhou um prêmio da também recente Secretaria Nacional da Economia Criativa, por sua metodologia de aprendizagem em rede. E o Estante Pública, pouco mais antigo e famoso, inaugurado nas ruas da sortuda Porto Alegre em julho de 2008. O projeto, que investiga a gestão coletiva e popular de espaços urbanos, instalou desde então uma série de estantes com livros em pontos de ônibus em vários bairros da cidade. Com estruturas simples e sem nenhum tipo de controle de órgãos públicos ou privados, as estantes ocupam o inutilizado espaço para publicidade dos pontos de ônibus e permitem a livre troca de livros entre as pessoas. Poético!

 

Processo participativo do grupo USINA

Outro grupo muito bem intencionado é o USINA – Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado. São arquitetos, artistas, engenheiros, cientistas sociais e outros profissionais de diversas áreas, há mais de duas décadas propondo experiências territoriais num contexto de luta social e reforma urbana, especialmente em São Paulo. Construíram uma bela história ao lado de movimentos sociais, oferecendo-lhes um apoio técnico fortemente engajado, para a produção de empreendimentos habitacionais e equipamentos públicos, em áreas urbanas e rurais, além de planejamento urbano. Em verdadeiros canteiros de obras experimentais, o grupo faz uma arquitetura autogestionada, onde tudo – projeto, obra, técnica, estética – é discutido com os futuros moradores. São exitosas experiências de processos participativos na construção da cidade, somente possíveis com o envolvimento de profissionais interessados e dispostos em subverterem a ordem. Com muita maestria.

Duas iniciativas inspiradoras:

 

Architecture for Humanity

Uma rede aberta formada por arquitetos, designers, engenheiros e afins, do mundo inteiro, unidos para melhorar as condições de vida de pessoas que vivem em situação de risco, especialmente. Fundada em 99 em New York, não tem fins lucrativos; dão, recebem e compartilham design. Para viabilizar essa rede construíram o Open Architecture Network.

 

La Calderería

Um coletivo multidisciplinar que identifica demandas e propõe soluções para a melhoria de comunidades através de processos participativos, promovendo a cidadania. Estão localizados em Valencia – Espanha, e se auto intitulam como um laboratório de cultura emergente e economia social. Contam com um galpão abandonado cedido através de uma espécie de arrendamento, onde em troca oferecem a própria reforma e manutenção do edifício além de serviços para a comunidade. A ocupação desse espaço está sendo feita através de concursos de projetos.

 

Aqui no Brasil temos muitos ingredientes: enorme déficit habitacional e de justiça social, mercado incipiente para a economia criativa, alta criatividade e capacidade de inovação, cidades novíssimas com tudo por se fazer, mercados em ascensão. O que pensam – e o que fazem – nossos arquitetos, urbanistas, designers, engenheiros… diante essa realidade? Conheço algumas iniciativas brasileiras, na maioria das vezes ainda muito flageladas pelas dificuldades de um mercado restrito, elitizado e conservador. Irei mostrá-las nos próximos posts. Você conhece alguma? Vamos partilhar?

21 de junho de 2012, 8h da manhã, chuva no Rio de Janeiro.

A caminho do Galpão da Cidadania, a região portuária do Rio com seus inúmeros galpões vazios, ruas confusas cheias de carros nervosos e pessoas amontoadas pelas calçadas inseguras.

Dentro do Galpão da Cidadania, o Seminário Diálogos Setoriais União Europeia-Brasil sobre Economia Criativa. Dois dias cheios de riquíssimas discussões sobre como empoderar os criativos com os instrumentos que lhes faltam para promover a tão sonhada transformação da sociedade e do meio em que vivemos.

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Lá fora a cidade rangia seus dentes de concreto, cuspia fumaça, gritava histericamente.

Lá dentro os criativos do Brasil e da Europa debatiam sobre economia, sobre como potencializar nossa originalidade e recombinar pessoas e lugares, sobre a formação para os setores criativos, as tecnologias sociais e novos modelos de negócios para o setor. Falas muito interessantes.

Logo no primeiro dia, Leo Feijó, empresário carioca à frente de mais de 10 espaços de cultura no Rio, defendia a ‘Economia da Noite’. Palco dos boêmios e dos artistas (também de trabalhadores, de famílias, turistas etc), a noite é co-responsável pela formação da cultura local, patrimônios material e imaterial, e tem um grande peso econômico que deve ser considerado pelas políticas públicas, pelas diretrizes de desenvolvimento urbano SUSTENTÁVEL.

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No segundo dia dois estrangeiros nos chamaram muita atenção: Ingrid Walther, representando o governo de Berlim, e Ricardo Luz apresentando o trabalho da ADDICT (Agência para o Desenvolvimento das Indústrias Criativas) na região norte de Portugal. A alemã apresentou uma realidade tão aparentemente perfeita que nem foi muito solicitada posteriormente no debate. Berlim, considerada a capital do design, vem há alguns anos investindo na formação empreendedora de seus criativos (pasta do Ministério da Fazenda, não da Cultura, como aqui no Brasil). Já o português fez uma palestra extremamente motivante, convidando a plateia para a transformação do tradicional, numa exposição sobre as várias revoluções que vivemos atualmente (demográfica, econômica, recursos naturais, ciência e tecnologia, informação e conhecimento, segurança e governança).

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Encerrando em grande estilo, Andre Martinez da Aprax – Arquitetura Cultural, falou sobre empreendedorismo e aprendizagem, e terminou por inundar a plateia com os conceitos de co-empreendedorismo, co-design, co-vivência, co-laboração.

Lá fora, o dia corria depressa; o taxista não compreendia no que efetivamente a Rio+20 resultava; as morenas não conseguiam bronzear-se sob o céu cinza na praia de Copacabana; as filas intermináveis, as passeatas em marcha-ré e todas as pompas para os chefes de estado que não se entendiam sobre os rumos da ‘economia verde’.

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Mas no quê mesmo resultou a Rio+20? Certamente, não foram os tratados políticos que se destacaram na construção do “Futuro que Queremos”. Mas valeu e muito pelas experiências, pelas trocas, pelas alianças, pelas redes que se formaram e se afirmaram entre os vários segmentos da sociedade, dos povos, num exercício constante de reinventar o mundo.