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Sobre a memória que não retemos da cidade que não vemos.

Que o coreto da Praça Cívica pode sim ecoar músicas, poesias, cores, vida?

Você conhece alguma das várias vielas que cortam e ligam as quadras do Setor Central? Sabia que nessas vielas além de estacionamentos, lixo, grades, antenas também há teatro, dança, música, pessoas que preservam a memória de um centro rasgado em becos, janelas, asfalto além de bulevares, praças, camelôs?

Já reparou no desperdício que é a quantidade enorme de terrenos nobres pelo Centro, que poderiam abrigar residências e serviços mas são ocupados por estéreis estacionamentos? Já reparou na quantidade de prédios abandonados por ali? E a quantidade de prédios que não conseguimos conhecer por estarem escondidos atrás de letreiros enormes que muito mais do que atrair clientes contribuem para a poluição visual das nossas ruas?

Você, goianiense, já percebeu que, além do nosso património Déco temos também um grande património modernista, representado essencialmente por várias residências particulares, muitas delas ameaçadas pelo descaso e prestes a serem vitimas de mais algumas demolições criminosas como as que vimos nos últimos dias? Sabia que o prédio da Federação das Indústrias, em frente ao Teatro Goiânia, tem um singelo átrio em forma de coração? Já foi ao Museu Pedro Ludovico, na antiga residência da família, de arquitetura e mobiliário Art Déco, e onde há tanta história sobre a formação da cidade? Já foi a algum museu em Goiânia???

Você, na correria do dia a dia, consegue observar as frases soltas, os desenhos e toda a comunicação contida nos muros da cidade? Sabe que muitas delas realmente querem nos dizer algo e que, se você permitir, ainda poderá ser tocado? Sabia que em meio às pessoas que passam e não tem tempo para um bom dia, há outras que usam do próprio tempo para sair distribuindo amor pelas ruas da cidade, amor pela cidade, amor por você?

Você, goianiense, que reclama de não acontecer nada na sua cidade, sabia que se você quiser que algo aconteça, pode se juntar a outras pessoas que também o querem e juntos ocuparem as ruas, as esquinas, os canteiros, os parques… tudo? Porque a cidade é sua! E porque são as pessoas que fazem a cidade acontecer.

Este texto é uma singela homenagem às pessoas que fazem acontecer. Ao professor Bráulio e seus parceiros que me fizeram acordar numa manhã de sábado às 7h para sairmos à deriva pelo centro da cidade, fotografando qualquer coisa que surgisse à nossa frente, na tentativa de desvendar a cidade que sou, a cidade que faço. É também uma homenagem com felicitações ao Fake Fake que me fez percorrer várias ruas de Goiânia colando amor e colorindo tudo de infinito. É um sincero agradecimento ao Coletivo Vivacidade que me levou a um picnic no canteiro da Avenida Goiás, encheu o Coreto de poesia e o meu coração de alegria, fechando um dia intenso de ocupações, à deriva, com amor e com afeto, com imagens, palavras, música e palhaçada. E é uma homenagem à cidade de Goiânia, à goianiense que não sou de nascença mas que sou de coração, e à tudo o que forma a nossa memória coletiva sobre esta cidade a quem chamamos de casa.