Archives for category: Experiências Sobreurbana

Nos dias 30 e 31 de Outubro de 2017, o Guangzhou City Image and Design Forum reuniu em Cantão/China artistas, arquitetos, urbanistas e especialistas de diversas áreas de conhecimento para um conjunto de palestras, discussões e workshops sobre arte pública e formas de melhorar o diálogo entre os habitantes e os espaços públicos. O evento teve por base um interesse político manifestado pelo governo da cidade em experimentar novas formas de envolver os cidadãos na construção da cidade, nomeadamente através das artes. A presença de vários representantes do governo de Cantão, incluindo o Presidente da Câmara e o chefe do departamento de urbanismo, comprovou essa vontade de mudança.

Foi neste contexto que recebemos um convite do CIALP (Conselho Internacional dos Arquitectos de Língua Portuguesa) – parceiro do evento – para partilharmos nesse fórum a experiência brasileira que a Sobreurbana realizou em Goiânia com o Casa Fora de Casa: um projeto de Urbanismo Colaborativo, financiado pelo Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás. Partindo do princípio que as pessoas cuidam mais daquilo que conhecem e com que se identificam, o projeto procura transformar o bairro – e a cidade – a partir de dentro, dos cidadãos, começando por transformar o olhar e percepção que eles têm sobre a cidade, os espaços públicos e os diferentes usos. Fomentando a empatia e as relações de vizinhança, promovendo o pensamento crítico e criativo para achar respostas aos desafios locais que não provoquem novos conflitos.

Apesar das diferenças avassaladoras existentes entre Goiânia e Cantão, há problemas comuns em todas as cidades que crescem muito rápido, numa lógica top-down onde os decisores muitas vezes estão desligados da realidade socio-cultural do lugar que estão a planejar. Do mesmo modo, também há soluções que surgem naturalmente se incluirmos a população nesse processo de construção da cidade. O Casa Fora de Casa recorre a ferramentas do design thinking, placemaking e urbanismo tático, assim como a uma diversidade de linguagens artísticas, como forma de levar as pessoas a estabelecerem relações afetivas com os espaços da cidade, e com as outras pessoas que os frequentam, levando-os a questionar o que está errado, mas também a pensar em soluções para os problemas, estabelecendo depois a ponte para que os decisores políticos tenham acesso a esses dados e consigam ter maior base para suas decisões. Para os organizadores, o projeto foi uma lufada de ar fresco e mostrou novos caminhos de construir a cidade. Nada parecido existe em Cantão, porém ficaram muito interessados em replicar alguns dos processos.

O Guangzhou City Image and Design Forum estava inserido no Guangzhou Urban Art Week e foi organizado pela GPAA (Guangzhou Public Artist Association). A GPAA é uma ONG que articula uma rede internacional e interdisciplinar de pessoas e entidades que trabalham com arte e cultura em prol de uma cidade melhor e com melhores espaços públicos, para depois aplicar esse conhecimento para melhorar a imagem de Cantão e a relação da cidade com os habitantes. Com muito orgulho, a Sobreurbana faz agora parte dessa rede e é membro da Guangzhou Public Artist Association.

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Jane’s Walk é um movimento global inspirado nas ideias de Jane Jacobs e que promove passeios a pé com o propósito de explorar e descobrir a cidade e fortalecer a comunidade. O Festival Jane’s Walk é realizado anualmente na altura do aniversário de Jane Jacobs e promove centenas de passeios em simultâneo em cidades de todo o mundo. Em 2015, Goiânia participou pela segunda vez consecutiva no Festival Jane’s Walk com dois passeios.

O primeiro passeio do festival foi conduzido pela Carol Farias, da Sobreurbana, no Setor Sul. O Setor Sul é extremamente sedutor pela enorme quantidade de áreas verdes e quase ausência de prédios, apesar da sua grande centralidade na cidade, pelas vielas que constantemente nos surpreendem e pela extraordinária arte urbana que tem invadido seus muros ao longo dos últimos anos. Foi a 3ª vez que conduzimos um passeio por este bairro, sempre explorando percursos diferentes. Dos 7 Jane’s Walks realizados até hoje, este foi o mais popular, com maior adesão e diversidade, contando com mais de 50 participantes, entre eles: um funcionário do alto escalão da Prefeitura de Goiânia, uma mãe com carrinho de bebê, um cego, crianças, jovens, adultos, vários moradores que pegaram no megafone para compartilhar histórias do bairro.

O segundo passeio foi realizado na Vila Nova e conduzido pela arquiteta Gabriela Silveira, ex-moradora do bairro. O Setor Vila Nova é dos bairros mais tradicionais de Goiânia, construído desde o início para abrigar os trabalhadores que vieram para construir a cidade. Apesar da sua importância, pouco se sabe sobre a Vila Nova e de um total de 17 participantes, quase todos entraram pela primeira vez no mercado e no Parque Botafogo.

No final dos passeios, foi consensual, mesmo entre os que moram, trabalham ou circulam diariamente naqueles bairros, que esta experiência mudou a sua relação com a região e a com a cidade. Foi unânime também o interesse em participar de um próximo Jane’s Walk, e entre as várias sugestões para um novo passeio destacou-se, de longe, o Centro. Será este o nosso próximo destino?

Foi o ato de caminhar que levou a humanidade à criação da arquitetura e, consequentemente, das cidades. A necessidade de alimentação e de construção simbólica do território para a garantia da sobrevivência levou os caçadores e os pastores do paleolítico a situarem no espaço natural o primeiro objeto marco da antropização – o menir – a partir do qual se desenvolveu toda a arquitetura.

Até hoje, as escolhas que as pessoas fazem das ruas, avenidas e passarelas que percorrem, influenciam diretamente na forma como elas se relacionam com a cidade e com as outras pessoas.

No entanto, a priorização dos veículos motorizados em detrimento aos modos saudáveis de transporte tem consumido o espaço urbano com infraestruturas dedicadas aos fluxos de automóveis, em detrimento ao pedestre e ao ato de caminhar, ainda que a maior parte dos deslocamentos pelas cidades continue sendo feita a pé.

As infraestruturas dedicadas aos pedestres, com menor valor na construção capitalista do espaço urbano, geralmente oferecem às pessoas experiências negativas e passam a ser evitadas, revelando um círculo vicioso: as pessoas evitam andar pelas ruas e as cidades seguem sendo construídas só para os carros.

Com o objetivo de familiarizar as pessoas com as ruas das cidades, a comunidade internacional Jane’s Walk promove passeios comunitários a pé desde 2008, quando foi fundada na cidade de Toronto/CA. A ideia é aproximar as pessoas dos espaços públicos da cidade, incentivando-as a lutarem por melhores condições, fortalecendo assim a vida comunitária. Tudo isso através do ato de caminhar.

A Sobreurbana, que desde sua inauguração em dezembro de 2013 tem promovido desses passeios na cidade de Goiânia, realizou em 21 de setembro de 2014, no âmbito da Semana da Mobilidade, o Jane’s Walk Mais Vida Menos Motor, com o objetivo de discutir sobre mobilidade urbana na perspectiva do pedestre. A atividade aconteceu através de uma parceria com a arquiteta Ana Paula Borba e o ambientalista e cicloativista Uirá Lourenço que levaram pela primeira vez os Jane’s Walks à capital federal. No mesmo dia realizamos um passeio em Brasília e outro em Goiânia, promovendo a mesma discussão e ainda colaborando com a Campanha Sinalize do Portal Mobilize Brasil, através de um questionário sobre a qualidade da sinalização para o pedestre nos trechos percorridos. Dessa avaliação surgiu uma média atribuída a cada trecho de cada cidade, inserida na plataforma on line da campanha, visível neste link. Para as duas cidades a avaliação foi muito negativa.

Goiânia e Brasília são duas cidades planejadas e construídas no sertão do país na primeira metade do século passado, ambas com a função de sediar o poder político – a primeira do estado de Goiás e a segunda do governo federal. As duas cidades foram construídas através de grandes projetos de planejamento urbano, que na época supervalorizavam o advento do automóvel. Como resultado, apresentam malhas viárias muito diferentes uma da outra mas ambas sugerem a segregação, longas distâncias e a alta velocidade, pesadelos diários para pedestres e ciclistas.

Em Goiânia o passeio teve início na Praça Cívica e percorreu importantes avenidas, ruas e alguns becos do Setor Central, buscando observar as diferentes infraestruturas da mobilidade urbana lá instalada: ruas dedicadas ao incentivo da velocidade dos carros, corredores exclusivos do transporte coletivo, sua única rua pedonal, becos e ciclovia. Quinze pessoas compareceram, num domingo atípico devido à realização de várias outras manifestações sociais na cidade, como a Caminhada pelo Clima e a Parada Gay. A discussão ao longo do passeio foi sobre como nós pedestres nos colocamos no meio disso tudo, uma reflexão que passa pela questão da apropriação dos espaços públicos da cidade.

Ao final do percurso os participantes responderam a um questionário com perguntas sobre a experiência do passeio e os espaços visitados. Sobre alguma surpresa que tivessem tido durante o percurso, foi quase unânime a descoberta dos becos do centro da cidade. Desenhados no projeto inicial para serem ruas de serviço (como a coleta de lixo, carga e descarga…) os becos permanecem na malha da cidade como espaços residuais pouco visíveis, e vem sendo tomados por estacionamentos particulares. Questionados sobre a satisfação em relação à situação atual da Praça Cívica, as respostas sempre apontaram para a necessidade de aumentar a arborização, retirar a pavimentação asfáltica e o uso como estacionamento, devolvendo-a aos pedestres. Vale dizer que hoje, cinco meses depois do passeio, a Praça Cívica passa por uma reforma polêmica e muito pouco discutida na cidade, que interfere exatamente nos pontos levantados pelos participantes. Sobre a experiência do Jane’s Walk, as respostas revelaram o prazer em redescobrir a cidade, compartilhando dos vários pontos de vistas e experiências dos participantes, o que nos faz concluir que cumprimos nosso objetivo com o passeio.

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Para o caso de Brasília, o percurso teve início no estacionamento de uma entrequadra (208/408 norte) que fica ao lado de um posto de saúde e contou com 31 participantes, dentre eles, quatro crianças e uma cadela (que não entrou na contagem).

Surpreendente notar que durante o percurso havia o nítido desconhecimento dos espaços pelos participantes, que na maioria, moravam na redondeza do trajeto escolhido, mas só o conhecia por meio dos deslocamentos diários dentro de seus veículos.

Alguns dos pontos debatidos durante o percurso e que são cruciais para o impedimento de uma mobilidade urbana fluida foram: (a) grandes áreas vazias e sem infraestrutura pedonal, (b) presença de vias expressas dividindo a cidade e sendo uma barreira física aos deslocamentos não motorizados, (c) barreiras ao nível do pé (escadas, rampas com alta inclinação, espaços estreitos, etc.), (d) uso compartilhado da ciclovia, provocando certo conflito entre pedestres e ciclistas,  principalmente para pessoas com mobilidade reduzida, etc. Com isso, ratifica-se (mais uma vez) que o desenho da cidade provoca um distanciamento cada vez maior entre os espaços e os seus usuários no que tange a escala humana, fomentando, portanto, o uso desmedido dos veículos motorizados.

Assim como em Goiânia, realizou-se também a análise da sinalização pedonal durante o percurso – considerada em média pelos participantes como muito ruim –, além do preenchimento do mesmo questionário, em que o primeiro item destinava-se a completar a frase em relação ao Eixão: “Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava eu mandava…”, interessante notar como a grande maioria, sendo motoristas no dia a dia, mas ali por algumas horas “estavam” pedestres e sentiram a cidade na escala humana e não na motorizada, se deram conta de que aquele poderia ser sim um local de contemplação, com mais arborização, “mais vida e menos motor”.

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Texto escrito com a colaboração de Ana Paula Borba e Uirá Lourenço.

Semana passada a Sobreurbana esteve presente no seminário e workshop ‘Tecnopolítica, Democracia e Urbanismo Táctico’, conduzido pelo grupo de pesquisa Indisciplinar, da UFMG, no âmbito do VAC9 – Verão Arte Contemporânea, em Belo Horizonte.

Dois dias de conversas muito interessantes sobre democracia e cidade, passando pelas rápidas transformações que os territórios urbanos vem sofrendo, o impacto das novas tecnologias nesse processo, o papel do urbanista, a corrupção da memória na era do urbanismo botox e a necessária reinvenção do comum.

Duas descobertas interessantíssimas: o trabalho dos professores Monique Sanches e Maurício Leonard na UFOP, que realizam urbanismo táctico na cidade de Ouro Preto dentro de uma disciplina na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo; e o trabalho do coletivo Micrópolis, um grupo de estudantes que convenceu seus professores a deixá-los fazerem o trabalho de conclusão de curso em grupo, num tradicional bairro de BH – o Calafate – realizando uma série de mapeamentos, micro intervenções e eventos buscando o envolvimento comunitário para testar ações de reconquista do espaço público.

Para amarrar tudo muitíssimo bem, a apresentação do italiano Domenico di Siena, o Urbano Humano que veio ao Brasil exclusivamente para o evento e para dividir conosco seu conhecimento e experiência na atuação com urbanismo open source. Considerando a necessidade de reinventarmos, apoiados na explosão de novas tecnologias, novas formas de interação e construção do urbano, Domenico explorou e defendeu conceitos muito interessantes dos quais destacamos alguns:

  • O cidadão enquanto prosumer – consumidor mas também produtor da cidade.
  • A dimensão glocal – utilizar a inteligência coletiva global de forma situada, para o tratamento de coisas muito concretas, pontuais, locais.
  • A ideia de rede ao invés de comunidade, visto que em rede há horizontalidade, sentido comum ao invés da construção de consensos, e a possibilidade de multi-pertença. Afinal não temos só uma identidade ou só um interesse…

Já buscando o entendimento prático sobre esses e outros conceitos, estivemos nos dois últimos dias do evento produzindo uma intervenção urbana e coletiva na Praça Carlos Marques, no Bairro Calafate, em contribuição ao trabalho iniciado pelo Micrópolis, e que também foi uma ótima experiência para todos nós. Lambes com imagens antigas de pessoas do bairro, lambes sobre a Operação Urbana Consorciada do qual o bairro está sendo alvo, brincadeiras para crianças e adultos, troca de histórias pessoais por livros usados, foram algumas das ações realizadas.

A ação em que a Sobreurbana esteve diretamente envolvida foi uma instalação no coreto da praça, local que sempre abrigou moradores de rua, personagens identificados pelos moradores como o maior ‘problema’ do local. Para questionar a forma como as cidades tratam os moradores de rua, desenhamos a planta de uma casa no piso do coreto e escrevemos um versinho singelo em sua escadaria, para reforçar que o caráter público daquele lugar, o torna tanto meu, quanto seu, quanto de um morador de rua.

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Urbanismo táctico, emergente, open source… experiências que vamos compartilhando para construir a inteligência coletiva global que silenciosamente já está transformando o mundo.

Você acredita nisso?

 

De volta das tão sonhadas e merecidas férias, iniciamos 2015 com muito orgulho de todo trabalho produzido em 2014. Um ano assim tão recheado só foi possível com a sua participação, interesse e ótimas energias, que nos inflamaram em nossa missão de contribuir para a melhoria das cidades que habitamos. Muito obrigado!

 

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Foi com muito suor e prazer que a Sobreurbana realizou entre 24 e 30 de novembro/14 a 1ª Semana da ecologia Urbana de Goiânia. E esperamos que tenha sido a primeira de muitas oportunidades para aprendermos a construir uma cidade onde todos nós caibamos nela, junto com os prédios, as ruas, as árvores, os rios, o sol, o céu, os bichos, em harmonia.

Nossa programação buscou sensibilizar e preparar tecnicamente para a construção da resiliência da nossa cidade, tratando de temas como: infraestruturas urbanas verdes, serviços ecossistêmicos, desenho sensível à água e a permacultura, com destaque para alguns de seus artifícios como os telhados vivos, os jardins de chuva e os jardins verticais; o movimento de transição e a metodologia cradle to cradle; o cicloativismo, a agricultura urbana e a sustentabilidade do mercado frente aos desafios da escassez de recursos e as mudanças climáticas. Iniciamos a discussão com a exibição do filme “Home – Nosso Planeta, Nossa Casa” e encerramos com um passeio para observar e conhecer as árvores da cidade. E ainda iniciamos juntos, e a partir do absorvido ao longo da semana, uma “Carta para Goiânia”, onde vamos pontuar as questões que entendermos necessárias para a nossa cidade, resultando em um documento que oriente nossas ações futuras e reivindicações ao governo, além de formar a pauta para a próxima Semana da Ecologia, em 2015. Esse processo está sendo conduzido pelo murAU de Ideias.

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Essa intensa e diversificada programação que conseguimos montar, só foi possível devido a parceria que estabelecemos com vários indivíduos, grupos e instituições: o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás – CAU/GO e o Sindicato dos Arquitetos de Goiás, que foram os primeiros a acreditarem e apoiarem o projeto; Mr. Dusty Gedge e Mr. Gary Grant, do Green Infrastructure People, que nos inspiraram a idealizar o evento; a PUC Goiás, especialmente através do Departamento de Artes e Arquitetura e do Centro Acadêmico Livre da Escola de Arquitetura – CALEA; a Prefeitura Municipal de Goiânia, especificamente através do Departamento de Agricultura Familiar da SEMIC; o Programa de Pós-graduação Projeto e Cidade da UFG; Sebrae Goiás; a ANTP – Regional Centro-Oeste; o projeto “O Futuro da Minha Cidade” através do SINDUSCON, ADEMI e SECOVI; Tyba Hostel; Cine Cultura; nossos palestrantes, oficineiros e fornecedores; Elisa França e Maria Ester, fundamentais para os trabalhos de divulgação e produção do evento; aos amigos Áureo Rosa, Carolina Camargo, Diogo Santos e tantos outros que de alguma forma nos apoiaram e acreditaram na importância desse projeto. Muito obrigada!

ECOLOGIA URBANA é uma recente área de estudo que, extrapolando a ideia de natureza virgem trabalhada pela ecologia tradicional, busca compreender o ecossistema da cidade, um amálgama de natureza e artificialidade, a maior invenção humana. Mas, como em todos as nossas criações, às vezes acertamos, às vezes erramos. Em relação às cidades e ao impacto que elas causam ao planeta, não temos mais tempo para tantos erros. E temos muita informação para nos convencermos de que os recursos naturais do planeta não são infinitos e que tudo acontece nele numa relação muita clara de causa e efeito. Se somos todos frutos de um grande Big Bang, somos todos partículas de uma mesma célula chamada universo. É infantil e equivocado olhar para os seres humanos como seres superiores aos outros animais, às pedras, ou às ervas daninhas. Ou aprendemos a coexistir numa relação de equilíbrio com todas as partes do ecossistema, ou seremos em breve eliminados dessa equação.

Por isso as CIDADES são o objeto de estudo da vez. O relatório “Perspectivas Globais de Urbanização”, lançado pela ONU em julho deste ano, aponta que em 2050 seremos 6 bilhões de seres humanos na Terra, dos quais 66% viverão em cidades. Esse processo de urbanização intensa é muito recente na história do planeta, e muito injusto. Estudos apontam que 20% das pessoas no mundo consomem o equivalente a 80% dos recursos disponíveis. Esse desequilíbrio se deve em grande parte aos processos de urbanização que conduzimos, baseados no consumo exacerbado de todas as coisas e no crescimento irracional em todas as direções. Esse modelo não tem sido positivo nem para o planeta e nem para nós. Precisamos fazer diferente.

Como? Utilizando a arborização como forma de garantir a qualidade do ar e de amenizar os efeitos das ilhas de calor; gerindo melhor os fluxos da água, seja no solo, nos mananciais ou no ar; formando corredores verdes com a trama de parques, a fim de manter a biodiversidade da fauna e da flora; reduzindo, reutilizando e reciclando tudo, sempre; utilizando energia limpa; plantando alimentos mais perto de onde estão as pessoas; diminuindo a nossa dependência dos automóveis; aprendendo tolerância e cooperação entre pessoas e comunidades; e tantas outras possibilidades de harmonia entre o ambiente construído e a natureza.

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A SOBREURBANA é um estúdio criado ano passado aqui em Goiânia para o desenvolvimento de intervenções urbanas e gestão cultural. Nosso propósito é contribuir para a transição da cidade que temos hoje para uma cidade mais tolerante, justa, saudável e centrada nas pessoas. Acreditamos em e trabalhamos para o empoderamento das pessoas nas tomadas de decisões e na construção de ambientes mais aprazíveis e dignos. E sabemos que o protagonismo das comunidades depende de uma relação de maior afeto e cuidado entre pessoas e lugares, do entendimento de que nós, pessoas, somos a nossa cidade. Nesse sentido, a 1ª Semana da Ecologia Urbana de Goiânia é para nós, Sobreurbana, um marco que encerra nosso primeiro ano de ações voltadas para a sensibilização das pessoas em torno das questões urbanas, do ambiente que construímos.

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Que venha 2015 e muitas outras Semanas cheias de Ecologia Urbana!

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Semana que vem, dia 24 de Outubro, Goiânia completa 81 anos de ocupação do cerrado. Para comemorar, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás convidou vários criativos, coletivos e descolados para comporem uma agenda de atividades que convidem à ocupação da capital. De 11 de Outubro a 2 de Novembro teremos várias atividades gratuitas, lúdicas, cívicas e deliciosas celebrando a cidade que somos e refletindo sobre a cidade que estamos construindo dia-a-dia.

A Sobreurbana ocupa Goiânia em duas ações:

Uma delas é a Escola de Parklet com o Instituto Mobilidade Verde-IMV, num curso de 17 a 19/10 no espaço mais criativo da cidade, o Coletivo Centopeia.

Mas… Parklet é o que mesmo? É um prolongamento da calçada, como uma mini praça sobre uma ou duas vagas de estacionamento. Uma proposta lançada em São Francisco/ EUA, para discutir sobre uma redistribuição do espaço urbano entre carros e pessoas. Ano passado o IMV fez o primeiro parklet em São Paulo e neste ano já conseguiu que a prefeitura regulamentasse a execução desse mobiliário urbano na cidade, através do Decreto 55.045/2014. Esperamos com essa ação, exercitar nossa imaginação sobre a qualidade dos espaços públicos de Goiânia e abrir o caminho para a construção de parklets aqui no cerrado. Quem quiser se inscrever, envie um e-mail para info@sobreurbana.com informando nome, telefone, idade e profissão/atividade. Mas corra porque são só 24 vagas!

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A outra é uma Prototipagem de Intervenção Urbana na Praça Universitária, que a Sobreurbana vai desenvolver no decorrer de todos esses dias. Prototipagem? Sim, e significa exatamente o que o termo quer dizer: experimentação. É uma nova tendência na feitura de espaços públicos, segundo o preconizado pelo placemaking e o urbanismo táctico, na tríade ‘mais leve, mais rápido e mais barato’.  A ideia é experimentar soluções, sendo o experimento já uma proposta de uso imediato, que ao longo do tempo vai sendo legitimada ou não pelas pessoas, para uma posterior intervenção definitiva, se for o caso. Quer um exemplo? A Sobreurbana participou no mês passado da 1º Oficina do Cidades para Pessoas onde prototipamos uma intervenção na Passarela Rebouças, em São Paulo, que resultou no projeto Passanela, lançado no Catarse para financiamento coletivo.

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Junto à entrada do Palácio da Cultura, na Praça Universitária da capital goiana (parte de cima da praça), temos instalados desde abril dois painéis do projeto Before I Die, os quais substituiremos por uma nova brincadeira que também buscará interação com os transeuntes através da escrita e da leitura. Acompanhe nosso trabalho lá no local ou aqui em nossa página.

Participe e ocupe sua cidade, todos os dias, todas as ruas. Seja a sua cidade!

A 1ª Semana da Ecologia Urbana de Goiânia será, queremos que seja, a primeira de muitas semanas dedicadas anualmente ao macro tema da Ecologia Urbana, na região de Goiânia e no mundo.

Globalmente, tem-se experienciado fenômenos extremos como ilhas de calor, enchentes, secas, poluição do ar e da água e perda da biodiversidade. No seu crescimento, as cidades que não conhecem o seu ecossistema, destratam a natureza e provocam danos por vezes irreversíveis. Mas com o conhecimento e ferramentas adequadas, elas podem encontrar soluções que contribuam para uma melhor relação com o planeta, que melhoram a qualidade de vida do cidadão, que tornam a cidade mais limpa, mais bonita e que valorizam a própria região.

O objetivo da Semana da Ecologia Urbana de Goiânia é de contribuir cultural e tecnicamente na melhoria da resiliência urbana e no desempenho das cidades, reunindo profissionais, pesquisadores e apaixonados pela tema para compartilhar seus conhecimentos através de palestras, seminários, oficinas, workshops e outras atividades que estimulem o networking e a troca de conhecimentos.

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De 08 a 13 de setembro deste ano foi realizada em São Paulo a 1ª Oficina do Cidades para Pessoas. Para quem ainda não conhece ainda, o Cidades para Pessoas é um projeto jornalístico que reúne em um banco de dados, experiências e iniciativas coletadas em cidades da Europa e da América do Norte voltadas para a humanização das cidades. Isso mesmo: como tornar nossas cidades mais atraentes ao uso e ao convívio entre pessoas? Essa pergunta levou a jornalista Natália Garcia a duas viagens financiadas coletivamente (aqui no Catarse), a observar as cidades consideradas bem-sucedidas nesta matéria, reunir seus bons exemplos e espalhar essas ideias aqui no Brasil.

Depois de alguns anos viajando todo o Brasil para mostrar o que ela viu lá fora e chamar a nossa atenção para o potencial de nossas cidades, a Natália propôs, dentro do Festival CoCidade, a 1ª Oficina do Cidades para Pessoas. A oficina buscou, numa escala local, prototipar ideias que melhorassem a qualidade e o uso de algum lugar público da cidade de São Paulo, onde ela aconteceu. Para as atividades, foi selecionado um grupo de 20 pessoas, das mais diversas áreas de atuação, do Brasil e do mundo, do qual a Sobreurbana fez parte.

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Durante uma semana, nós exploramos a cidade para localizar problemas e potenciais urbanos e então prototipar uma ideia e formatar um projeto de financiamento coletivo para viabilizá-la. Ufa! Foram dias muito intensos mas muito ricos. Nosso local escolhido: a passarela para pedestres sobre a Av. Rebouças que dá acesso ao Incor. Nossa missão: transformar aquele espaço em um lugar.

Com metas diárias, o grupo da oficina tentou primeiro compreender a dinâmica do espaço: passamos umas boas horas no local, conversando com as pessoas, desenhando a passarela em todos os seus ângulos e detalhes, observando os fluxos de deslocamento das pessoas para compreender porque elas a evitavam, e buscando confirmar com os transeuntes as nossas próprias percepções sobre os problemas e potencialidades do espaço.

A partir daí, prototipamos com um mínimo de recursos financeiros e tempo, soluções para fornecer sombra, lugar para sentar, contato com o verde, oportunidades para contemplação da paisagem e expressão de emoções, além de sugestões de deslocamento, incentivando as pessoas a usarem a passarela ao invés de se lançarem por baixo dela no meio do alto tráfego de veículos, e a usarem todos os seus dispositivos como as escadas e os elevadores.

O resultado está registrado no projeto Passanela, lançado no Catarse durante a feira do Festival CoCidade, para financiamento coletivo da intervenção que já prototipamos e testamos para enfim ativarmos aquela passarela, oferecendo às pessoas uma melhor experiência naquele espaço urbano. Com o objetivo de inspirar e apoiar a ativação de todas as passarelas do país, uma das recompensas oferecidas a quem apoiar o projeto no Catarse, é um guia com o passo-a-passo que percorremos na oficina e uma consultoria com um dos participantes.

Se você acredita no poder que nós pessoas temos de transformar nossas cidades a nosso favor, visite nosso projeto, apoie, leve essa ideia para seus amigos e para a passarela mais próxima de você. Nossa campanha fica no ar no Catarse até o dia 18/10/14.

Segundo o PPS – Project for Public Spaces, principal organização para a difusão desse conceito, Placemaking é, como o nome sugere, a criação de ‘lugares’. A ideia é, a partir dos desejos e da criatividade da própria comunidade, transformar um espaço em um lugar e fazer dele o coração da comunidade.

O PPS foi criado a partir do trabalho coordenado pelo urbanista William Whyte que estudou na década de 80 o comportamento das pessoas pelos espaços públicos, especialmente em cidades norte americanas. A partir daí foi desenvolvido todo um arcabouço técnico e teórico para a criação de espaços públicos voltados para e a partir das necessidades humanas. Nós já falamos dos instrumentos do PPS aqui. Atualmente o PPS trabalha em projetos e consultorias em cidades do mundo inteiro, inclusive em Brasília, estigma do planejamento urbano de prancheta.

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No começo de setembro passado, a Sobreurbana esteve na Conferência Internacional Future of Places – Streets as Public Spaces and Drivers of Urban Prosperity, que aconteceu em Buenos Aires. Esta foi a segunda de uma série de três conferências propostas pelo PPS em parceria com a UN Habitat e financiado pela Ax:son Johnson Foundation, que vão subsidiar as reuniões preparatórias para a formulação da agenda mundial pós-2015 para o Desenvolvimento Sustentável, bem como a próxima reunião da Habitat III. O objetivo geral dessas conferências é defender na agenda mundial a importância do espaço público e do placemaking dentro do planejamento urbano.

Em meio a cerca de 300 pessoas de mais de 40 países dos cinco continentes, e ao lado de nomes como Fred Kent, fundador do PPS, e de David Sim, diretor criativo do Gehl Architects, a Sobreurbana apresentou em Buenos Aires sua experiência em Goiânia com a realização dos Jane’s Walks. A conferência reuniu um conteúdo muito rico quanto a produção acadêmica mas principalmente quanto a realizações de pessoas, organizações, empresas e governos que estão agindo pela ativação das ruas e outros espaços públicos com foco nas pessoas.

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Influenciados pela forte presença de brasileiros na conferência, foi decretada a criação do Conselho Brasileiro de Placemaking, que se reunirá pela primeira vez já na próxima segunda-feira dia  06/10/14 em São Paulo. Esperamos com este Conselho conseguir inserir na agenda política brasileira a necessidade de voltarmos o planejamento urbano para as reais demandas das comunidades, com um planejamento e um desenho voltados para as pessoas, que busque o protagonismo e o empoderamento da população, na busca de um ambiente urbano melhor para vivermos nesta e nas futuras gerações.